Posts tagged ‘papa Francisco’

Papa: alívio oferecido por Jesus não é apenas psicológico ou esmola

Papa Francisco na janela do apartamento pontifício para o Angelus

Papa Francisco na janela do apartamento pontifício para o Angelus  (ANSA)

O mundo exalta o rico e o poderoso, não importa com que meios, e por vezes espezinha a pessoa humana e a sua dignidade. E nós vemos isso todos os dias, os pobres espezinhados. E é uma mensagem para a Igreja, chamada a viver obras de misericórdia e a evangelizar os pobres, ser mansos, humildes. Assim o Senhor quer que seja a sua Igreja, isto é, nós.

Vatican News

Antes de rezar o Angelus neste XIV Domingo do Tempo Comum, o Papa Francisco propôs a seguinte reflexão aos peregrinos presentes na Praça São Pedro:

Queridos  irmãos e irmãs, bom dia!

O trecho evangélico deste domingo articula-se em três partes: primeiro, Jesus eleva um hino de bênção e ação de graças ao Pai, pois revelou aos pobres e ao simples o mistério do Reino dos céus; depois manifesta a relação íntima e única entre ele e o Pai; e por fim convida-nos a estar com ele e segui-lo para encontrar alívio.

Em primeiro lugar, Jesus louva o Pai, porque escondeu os segredos do seu Reino, da sua Verdade, escondidos «aos sábios e aos entendidos». Chama-os assim com um véu de ironia, porque presumem ser sábios, entendidos e por isso têm o coração fechado, tantas vezes. A verdadeira sabedoria vem também do coração, não é somente entender ideias. A verdadeira sabedoria também entra no coração. E se tu sabes tantas coisas e tens o coração fechado, tu não és sábio. Jesus fala sobre os mistérios do seu Pai revelando-os aos «pequeninos», àqueles que confiantemente se abrem à sua Palavra de salvação, abrem o coração à Palavra da salvação, sentem necessidade d’Ele e esperam tudo d’Ele. O coração aberto e confiante em relação ao Senhor.

Tal como o Pai tem preferência pelos «pequeninos», também Jesus se dirige aos «cansados e aos oprimidos». Com efeito, Ele coloca-se entre eles, porque é «manso e humilde de coração»: diz para ser assim. Como na primeira e terceira bem-aventuranças, a dos humildes ou pobres de espírito; e a dos mansos: a mansidão de Jesus.

Assim, Jesus, «manso e humilde», não é um modelo para os resignados nem simplesmente uma vítima, mas é o Homem que vive «de coração» esta condição em plena transparência ao amor do Pai, ou seja, ao Espírito Santo. Ele é o modelo dos “pobres em espírito” e de todos os outros “bem-aventurados” do Evangelho, que fazem a vontade de Deus e dão testemunho do seu Reino.

E depois Jesus diz que se formos até ele encontraremos alívio: o “alívio” que Cristo oferece aos cansados e oprimidos não é apenas psicológico ou esmola, mas a alegria dos pobres de serem evangelizados e construtores da nova humanidade: este é o alívio. A alegria. A alegria que nos dá Jesus. É única. É a alegria que ele mesmo tem. É uma mensagem para todos nós, para todas as pessoas de boa vontade, que Jesus transmite ainda hoje no mundo que exalta aqueles que se tornam ricos e poderosos. Mas, quantas vezes dizemos: “Ah, eu gostaria de ser como aquele, como aquela, que é rico, tem tanto poder, não lhe falta nada..”. O mundo exalta o rico e o poderoso, não importa com que meios, e por vezes espezinha a pessoa humana e a sua dignidade. E nós vemos isso todos os dias, os pobres espezinhados. E é uma mensagem para a Igreja, chamada a viver obras de misericórdia e a evangelizar os pobres, ser mansos, humildes. Assim o Senhor quer que seja a sua Igreja, isto é, nós.

Maria, a mais humilde e nobre das criaturas, implore de Deus a sabedoria do coração – a sabedoria do coração –  para nós, para que possamos discernir os seus sinais na nossa vida e participar daqueles mistérios que, escondidos aos soberbos, são revelados aos humildes.

5 de julho de 2020 at 14:06 Deixe um comentário

O desenvolvimento da doutrina é a fidelidade na novidade

Jesus: "Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus" (Mt 5,20)

Jesus: “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20)

Algumas críticas ao atual pontificado contestam o Concílio Vaticano II e chegam a esquecer o magistério de São João Paulo II e de Bento XVI

Sergio Centofanti

Certas críticas de caráter doutrinal ao pontificado atual estão mostrando um distanciamento gradual, mas cada vez mais claro, do Concílio Vaticano II. Não a partir de uma certa interpretação de alguns textos, mas a partir dos próprios textos conciliares. Há leituras que insistem em colocar o Papa Francisco contra os seus predecessores imediatos acabando assim por criticar abertamente São João Paulo II e Bento XVI ou, de alguma forma, silenciam alguns aspectos fundamentais do seu ministério que representam evidentes desenvolvimentos do último Concílio.

A profecia do diálogo

Um exemplo disso foi o recente 25º aniversário da Encíclica Ut Unum sint, na qual o Papa Wojtyla afirma que o compromisso ecumênico e o diálogo com os não-católicos são uma prioridade da Igreja. O aniversário foi ignorado por aqueles que hoje propõem uma interpretação redutiva da Tradição, fechada a esse “diálogo de amor”, além do doutrinal, promovido pelo Papa polonês em obediência ao ardente desejo de unidade de Nosso Senhor.

A profecia do perdão

Do mesmo modo foi esquecido outro aniversário importante: o pedido de perdão jubilar fortemente desejado por São João Paulo II em 12 de março de vinte anos atrás. O poder profético de um Pontífice que pede perdão pelos pecados cometidos pelos filhos da Igreja é algo decisivo. E quando se trata de “filhos”, inclui os papas. Sabe-se: aqueles que pedem perdão por erros cometidos se colocam em uma situação de risco de revisão. Wojtyla escolheu profeticamente o caminho da verdade. A Igreja não pode e não deve ter medo da verdade. O então Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sublinhou a “novidade deste gesto”, como um “ato público de arrependimento da Igreja pelos pecados do passado e do presente”: um mea culpa do Papa em nome da Igreja”, um verdadeiro “gesto novo, mas ainda assim em profunda continuidade com a história da Igreja, com a sua autoconsciência”.

Inquisição e violência: uma consciência que cresce

Muitas lendas obscuras foram fomentadas sobre a Inquisição, as fogueiras e várias intolerâncias da Igreja ao longo da história, exagerando, falsificando, caluniando e descontextualizando para apagar da memória a grande e decisiva contribuição do cristianismo para a humanidade. E os historiadores muitas vezes trouxeram de volta à verdade muitas distorções e mitologias da realidade. Mas isso não nos impede de fazer um sério exame de consciência para “reconhecer” – afirma João Paulo II – “os desvios do passado” e “despertar as nossas consciências diante dos compromissos do presente”. A partir disso chegou o pedido de perdão no ano 2000 “pelas divisões que ocorreram entre os cristãos, pelo uso da violência que alguns deles aplicaram a serviço da verdade, e pelas atitudes de desconfiança e hostilidade por vezes assumidas em relação aos seguidores de outras religiões”. “Com o avanço dos tempos – disse em 2004 – a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, percebe com uma consciência cada vez mais viva quais são as exigências de sua conformidade” ao Evangelho, que rejeita os métodos intolerantes e violentos que desfiguraram seu rosto na história.

O caso Galileu

Um caso particularmente significativo foi o de Galileu Galilei, o grande cientista italiano, católico, que – disse João Paulo II – “sofreu muito, não podemos escondê-lo, por causa dos homens e organizações da Igreja”. O Papa Wojtyla examina a história “à luz do contexto histórico da época” e “da mentalidade da época”. A Igreja, ainda que fundada por Cristo, “permanece constituída por homens e mulheres limitados, ligados à sua época cultural”. Ela também “aprende com a experiência” e a história de Galileu “permitiu uma maturação e compreensão mais justa de sua autoridade”. A compreensão da verdade cresce: ela não é dada de uma vez por todas.

Uma revolução copernicana

Wojtyla lembra que “a representação geocêntrica do mundo era comumente aceita na cultura da época de acordo com o ensinamento da Bíblia, na qual algumas expressões, tomadas literalmente, pareciam constituir declarações de geocentrismo”. O problema colocado pelos teólogos da época era, portanto, o da compatibilidade entre o heliocentrismo e Escritura. Assim, a nova ciência, com seus métodos e a liberdade de pesquisa que supõem, obrigou os teólogos a questionar seus critérios de interpretação da Escritura. A maioria não conseguiu fazer isso. Paradoxalmente, Galileu, um crente sincero, mostrou-se sobre este ponto “mais perspicaz que seus adversários teólogos” que haviam caído em erro ao tentar defender a fé. “A inversão causada pelo sistema Copérnico” gerou assim “repercussões na interpretação da Bíblia”: Galileu, não um teólogo, mas um cientista católico, “introduziu o princípio de uma interpretação dos livros sagrados, além do sentido literal, mas sempre de acordo com a intenção e o tipo de exposição própria de cada um dos textos”, segundo os gêneros literários. Uma posição confirmada por Pio XII em 1943 com a Encíclica Divino afflante Spiritu.

A teoria da evolução

Crescimento semelhante na consciência da Igreja ocorreu com a teoria da evolução que parecia estar em contradição com o princípio da criação. Uma primeira abertura foi a de Pio XII com a Encíclica Humani generis de 1950, que no próximo dia 12 de agosto, completará 70 anos. João Paulo II afirma que “a criação é colocada à luz da evolução como um evento que se estende no tempo – como uma ‘creatio continua’ – no qual Deus se torna visível aos olhos do crente como o Criador do céu e da terra”. Papa Francisco ressalta que “quando lemos no Gênesis a narração da Criação corremos o risco de imaginar que Deus foi um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo”. Mas não é assim! Ele criou os seres e deixou que se desenvolvessem de acordo com as leis internas que Ele mesmo inscreveu a cada um, para que se progredissem, e chegassem à própria plenitude (…) O Big Bang, que hoje se põe na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a. A evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.

O desenvolvimento do conceito de liberdade

No Novo Testamento, mas não apenas ali, há chamadas muito profundas à liberdade que mudaram a história: mas são descobertas pouco a pouco. O Papa Bonifácio VIII, com a Bula “Unam sanctam” de 1302, reafirmou a superioridade da autoridade espiritual sobre a autoridade temporal. Era uma outra época. Quase 700 anos depois, João Paulo II, falando em Estrasburgo ao Parlamento Europeu, observou que o cristianismo medieval ainda não fazia distinção “entre a esfera da fé e a da vida civil”. A consequência desta visão foi a “tentação integralista de excluir da comunidade temporal aqueles que não professavam a verdadeira fé”. Ainda em 1791, em carta aos bispos franceses, Pio VI criticou a Constituição aprovada pela Assembléia Nacional que “estabelece como princípio de direito natural que o homem que vive em Sociedade deve ser totalmente livre, ou seja, que em matéria de Religião não deve ser perturbado por ninguém, e pode livremente pensar como quiser, e escrever e até mesmo publicar na imprensa qualquer coisa em matéria de Religião”. E em 1832, a Encíclica Mirari vos de Gregório XVI fala da liberdade de consciência como “erro mais venenoso” e “delírio”, enquanto Pio IX, no Syllabus de 1864, condena entre “os principais erros da nossa época”, o fato de que não seja mais convencionado “que a religião católica deva ser considerada a única religião de Estado”, excluindo todos os outros cultos” e também o fato de que “em alguns países católicos foi estabelecido por lei que aqueles que aderem à outras religiões têm direito a ter culto público”. O Concílio Vaticano II, com as Declarações “Dignitatis humanae” sobre a liberdade religiosa e “Nostra aetate” sobre o diálogo com as religiões não-cristãs faz um grande passo adiante que recorda o Concílio de Jerusalém da primeira comunidade cristã que abre a Igreja a toda a humanidade. Diante desses desafios, João Paulo II afirma que “o pastor deve se mostrar pronto para ser verdadeiramente audacioso”.

Deter-se, mas em que ano?

Em 1988 ocorreu o cisma dos tradicionalistas lefebvrianos. Não aceitaram os desenvolvimentos trazidos pelo Concílio Vaticano II: segundo eles tinha sido criada uma nova Igreja. Bento XVI usa uma imagem forte quando os exorta a não “congelar a autoridade magisterial da Igreja do ano de 1962”. Já havia acontecido em 1870: os “velhos católicos” condenaram o Concílio Vaticano I pelo dogma da infalibilidade pontifícia. A Igreja Católica percorreu a história através de mais de 20 Concílios: todas as vezes têm alguém que não aceita os novos desenvolvimentos e detêm-se ali. Em 1854 Pio IX proclamou o dogma da Imaculada Conceição. Mas um grande santo, Bernardo de Claraval, embora um dos mais ardentes propagadores da devoção mariana, expressou por muitos séculos sua oposição a esta verdade: “Estou muito preocupado, pois muitos de vocês decidiram mudar as condições de acontecimentos importantes, como a introdução desta festa desconhecida para a Igreja, certamente não aprovada pela Razão, e nem mesmo justificada pela Tradição antiga. Somos realmente mais eruditos e piedosos que os nossos antigos pais?”. Era o século XII. A Igreja, desde então, introduziu outras festas desconhecidas que provavelmente teriam escandalizado muitos fiéis que viveram em séculos anteriores.

O caminho de Jesus: coisas novas e coisas antigas

Jesus disse que não veio para abolir a Lei, “mas para dar pleno cumprimento” (Mt 5,17). Ele ensinou a não transgredir nem mesmo “um destes preceitos, mesmo o menor” (Mt 5,19). Ainda assim, foi acusado de violar as regras de Moisés, como o descanso do sábado ou a proibição de frequentar os pecadores públicos. E os apóstolos deram um grande passo avante: aboliram a obrigação sagrada da circuncisão, que remontava a Abraão, em vigor há 2000 anos, e abriram-se aos pagãos, algo impensável na época. “Eis que”, diz o Senhor, “faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). É o “vinho novo” do amor evangélico que sofre o risco de ser colocado nos “odres velhos” da nossa segurança religiosa, que tantas vezes silencia o Deus vivo que nunca deixa de nos falar. É a sabedoria do “discípulo do Reino dos Céus” que busca a plenitude da Lei, justiça que supera a dos escribas e fariseus, extraindo “coisas novas e coisas velhas do seu tesouro” (Mt 13,52). Não só coisas novas, não só coisas antigas.

5 de julho de 2020 at 5:40 Deixe um comentário

Oração do Papa Francisco pelo Brasil

3 de julho de 2020 at 9:44 Deixe um comentário

2 de julho de 2020 at 11:49 Deixe um comentário

O Papa na Audiência Geral: Davi é nobre porque reza. A oração nos dá nobreza

1590567552102.jpg

“A oração nasce da convicção de que a vida não é algo que passa por nós, mas um mistério surpreendente, que em nós suscita a poesia, a música, a gratidão, o louvor, ou a lamentação e a súplica. Quando uma pessoa não tem essa dimensão poética, quando lhe falta a poesia, a sua alma manca”, disse Francisco em sua catequese.

Mariangela Jaguraba – Vatican News

O Papa Francisco prosseguiu com o tema da oração na Audiência Geral desta quarta-feira (24/06), realizada na Biblioteca do Palácio Apostólico.

Na catequese de hoje, o Pontífice abordou o tema da “A oração de Davi”, “predileto de Deus desde menino, escolhido para uma missão única, que assumirá um papel central na história do povo de Deus e da nossa fé”.

Nos Evangelhos, Jesus é chamado várias vezes “filho de Davi” e  como ele, nasce em Belém. Segundo as promessas, da descendência de Davi vem o Messias: “Um Rei totalmente segundo o coração de Deus, em perfeita obediência ao Pai, cuja ação cumpre fielmente o seu plano de salvação”.

Davi é um pastor

A história de Davi começa nas colinas ao redor de Belém, onde apascenta o rebanho de seu pai, Jessé. É ainda um rapaz, o último de muitos irmãos. Por ordem de Deus, o Profeta Samuel vai em busca do novo rei. Davi trabalhava ao ar livre e confortava a sua alma tocando harpa. “Nos longos dias de solidão gostava de tocar e cantar ao seu Deus. Brincava também com a funda”, disse o Papa, acrescentando:

Portanto, em primeiro lugar Davi é um pastor: um homem que cuida dos animais, que os defende quando surge o perigo, que lhes dá o sustento. Quando Davi, por vontade de Deus, tiver que se preocupar pelo povo, não realizará ações muito diferentes destas. É por isso que na Bíblia a imagem do pastor é muito recorrente. Também Jesus se define “o bom pastor”, o seu comportamento é diferente daquele do mercenário; oferece a sua vida pelas ovelhas, guia-as, sabe o nome de cada uma delas.

Dimensão poética

Davi aprendeu muito da sua primeira profissão. “Quando o profeta Natã o repreenderá pelo seu gravíssimo pecado, Davi compreenderá imediatamente que tinha sido um mau pastor, que roubara de outro homem a única ovelha que ele amava, que já não era um servo humilde, mas um homem doente de poder, um caçador furtivo que mata e saqueia”, sublinhou Francisco.

O mundo que se apresenta aos seus olhos não é uma cena silenciosa: o seu olhar capta, por detrás do desenrolar dos acontecimentos, um mistério maior. A oração nasce precisamente dali: da convicção de que a vida não é algo que passa por nós, mas um mistério surpreendente, que em nós suscita a poesia, a música, a gratidão, o louvor, ou a lamentação e a súplica. Quando uma pessoa não tem essa dimensão poética, quando lhe falta a poesia, a sua alma manca. Portanto, segundo a tradição Davi é o grande artífice da composição dos salmos. No início fazem frequentemente referência explícita ao rei de Israel e a alguns dos acontecimentos mais ou menos nobres da sua vida.

Oração, voz que nunca se apaga

“Davi tem um sonho: ser um bom pastor”, disse o Papa. “Às vezes conseguirá estar à altura desta tarefa, outras vezes, não; mas o que importa, no contexto da história da salvação, é que ele representa a profecia de outro Rei, do qual é apenas anúncio e prefiguração”, sublinhou Francisco.

“Olhemos para Davi, pensemos a Davi. Santo e pecador, perseguido e perseguidor, vítima e carnífice também. É uma contradição. Davi era tudo isso, junto”, disse o Pontífice, ressaltando que “também nós, na nossa vida, temos traços frequentemente opostos. Na trama da vida, todos os homens pecam muitas vezes de incoerência. Na vida de Davi existe apenas um fio condutor que confere unidade a tudo o que acontece: a sua oração. Esta é a voz que nunca se apaga”.

“Davi Santo, reza. Davi pecador, reza. Davi perseguido, reza. Davi perseguidor, reza. Davi vítima, reza. Até Davi, carnífice, reza. Este é o fio condutor de sua vida. Um homem de oração. Essa é a voz que nunca se apaga: quer assuma os tons do júbilo, quer os da lamentação, é sempre a mesma oração, só muda a melodia. Agindo assim, Davi nos ensina a deixar que tudo faça parte do diálogo com Deus: tanto a alegria como a culpa, o amor como o sofrimento, a amizade como a doença. Tudo pode tornar-se palavra dirigida ao “Tu” que nos ouve sempre”, frisou ainda o Papa.

Davi é nobre porque reza

Davi, que conheceu a solidão, na verdade, nunca esteve sozinho! E no fundo este é o poder da oração, em todos aqueles que lhe dão espaço na própria vida: A oração dá a você nobreza, e Davi é nobre porque reza. É um carnífice que reza, se arrepende e a nobreza retorna da oração. A oração nos dá nobreza: ela é capaz de assegurar a relação com Deus, que é o verdadeiro Companheiro de caminho do homem, no meio das numerosas provações da vida.

“Boas ou más, mas sempre a oração. Obrigado, Senhor. Tenho medo, Senhor. Ajuda-me, Senhor. Perdoa-me, Senhor. A confiança de Davi é tão grande que, quando ele foi perseguido e teve que fugir, ele não deixou ninguém defendê-lo: “Se meu Deus me humilha assim, Ele sabe”, porque a nobreza da oração nos deixa nas mãos de Deus. Aquelas mãos chagadas de amor e as únicas mãos seguras que temos”, concluiu Francisco.

2 de julho de 2020 at 5:54 Deixe um comentário

Papa: hoje precisamos de testemunhos de que o Evangelho é possível

1593416459948.JPG

“A profecia nasce quando nos deixamos provocar por Deus: não quando gerimos a própria tranquilidade, mantendo tudo sob controle. Não nasce de meus pensamentos, não nasce de meu coração fechado. Nasce se nós nos deixamos provocar por Deus. Quando o Evangelho inverte as certezas, brota a profecia. Só quem se abre às surpresas de Deus é que se torna profeta (…). Hoje precisamos de profecia, de verdadeira profecia: não discursos que prometem o impossível, mas testemunhos de que o Evangelho é possível.”

Vatican News

“Como o Senhor transformou Simão em Pedro, assim chama a cada um para fazer de nós pedras vivas, com as quais construir uma Igreja e uma humanidade renovadas. Há sempre quem destrua a unidade e quem apague a profecia, mas o Senhor acredita em nós e pede-te: «Queres ser construtor de unidade? Queres ser profeta do meu céu na terra?» Deixemo-nos provocar por Jesus e ganhemos a coragem de Lhe dizer: «Sim, quero»!

Não no Altar da Confissão com a Basílica de São Pedro lotada, mas no Altar da Cátedra, na presença de cerca de 90 fiéis. Na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo – em tempos em que são tomados todos os cuidados para evitar nova onda de contágios por coronavírus – o Papa Francisco presidiu a Santa Missa destacando duas palavras-chave: unidade e profecia.

No início da celebração, após a saudação litúrgica, o Decano do Colégio Cardinalício, cardeal Giovanni Battista Re, fez um breve pronunciamento, para então receber o pálio do Papa Francisco, que também abençoou os pálios que serão entregues aos Arcebispos Metropolitas nomeados no decorrer do último ano. Entre eles: cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Salvador da Bahia; Dom Josafá Menezes da Silva, arcebispo de Vitória da Conquista; Dom Irineu Roman, arcebispo de Santarém; Dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaur e Dom Virgílio do Carmo da Silva, arcebispo de Dili, Timor Leste.

Unidade

A reflexão do Papa Francisco parte da familiaridade que unia Pedro e Paulo, “duas pessoas muito diferentes, mas sentiam-se irmãos, como numa família unida onde muitas vezes se discute mas sem deixar de se amarem”, uma familiaridade que “não provinha de inclinações naturais, mas do Senhor. Ele não nos mandou agradar, mas amar. É Ele que nos une, sem nos uniformizar. Nos une nas diferenças.”

Em meio a perseguições, os primeiros cristãos não pensam em fugir ou salvar a própria pele, “mas todos rezam juntos” – recordou o Papa – enfatizando que “a unidade é um princípio que se ativa com a oração, porque a oração permite ao Espírito Santo intervir, abrir à esperança, encurtar as distâncias, manter-nos juntos nas dificuldades.”

Só a oração desata as algemas e deixa livre o caminho para a unidade

Francisco observa que “naqueles momentos dramáticos, ninguém se lamenta do mal, das perseguições”, pois “é inútil, e até chato, que os cristãos percam tempo se lamentando do mundo, da sociedade, daquilo que está errado. As lamentações não mudam nada. Recordemo-nos de que as lamentações são a segunda porta fechada para o Espírito Santo, como disse  a vocês no dia de Pentecostes: a primeira é o narcisismo, a segunda o desânimo, a terceira o pessimismo. O narcisismo te leva ao espelho, para se olhar continuamente; desânimo, às lamentações. O pessimismo, ao escuro, à escuridão. Essas três atitudes fecham a porta do Espírito Santo.” Aqueles cristãos, ao contrário, rezavam:

São Paulo – completou o Santo Padre – exortava os cristãos a rezar por todos, mas em primeiro lugar por quem governa:

“Mas este governante é …”, e os qualificadores são muitos: eu não os direi, porque este não é o momento nem o lugar para dizer os qualificadores que são ouvidos contra os governantes. Mas, que Deus os julgue: mas rezemos pelos governantes. Vamos rezar. Eles precisam de oração.  É uma tarefa que o Senhor nos confia. Temo-la cumprido? Ou limitamo-nos a falar, insultar e basta? Quando rezamos, Deus espera que nos lembremos também de quem não pensa como nós, de quem nos bateu a porta na cara, das pessoas a quem nos custa perdoar. Só a oração desata as algemas, só a oração deixa livre o caminho para a unidade.

Pedro e André

O Pontífice recorda que o pálio abençoado neste dia “recorda a unidade entre as ovelhas e o Pastor que, como Jesus, carrega a ovelha nos ombros e nunca mais a larga”.

Ao mesmo tempo, fala da bela tradição deste dia em que “unimo-nos de maneira especial ao Patriarcado Ecumênico de Constantinopla:

Pedro e André eram irmãos; e entre nós, quando é possível, trocamos uma visita fraterna nas respetivas festas; não tanto por gentileza, mas para caminhar juntos rumo à meta que o Senhor nos indica: a unidade plena. Hoje, eles não conseguiram vir por causa do coronavírus, mas quando desci para venerar os restos mortais de Pedro, sentia no coração ao meu lado meu amado irmão Bartolomeu. Eles estão aqui, conosco.

 

Hoje precisamos de verdadeira profecia

Depois da unidade, O Santo Padre fala de uma segunda palavra: profecia. Com perguntas provocatórias, Jesus faz Pedro entender que “não Lhe interessam as opiniões gerais, mas a opção pessoal de O seguir”, e a Saulo, o abala interiormente, fazendo-o cair por terra no caminho para Damasco, derrubando “sua presunção de homem religioso e bom”. Então, vem as profecias: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (Mt 16, 18); e a Paulo: «É instrumento da minha escolha, para levar o meu nome perante os pagãos» (At 9, 15):

Assim, a profecia nasce quando nos deixamos provocar por Deus: não quando gerimos a própria tranquilidade, mantendo tudo sob controle.  Não nasce de meus pensamentos, não nasce de meu coração fechado. Nasce se nós nos deixamos provocar por Deus. Quando o Evangelho inverte as certezas, brota a profecia. Só quem se abre às surpresas de Deus é que se torna profeta.

E isso, pode ser visto em Pedro e Paulo, “profetas que enxergam mais além: Pedro é o primeiro a proclamar que Jesus é «o Messias, o Filho de Deus vivo»; Paulo antecipa a conclusão da sua vida: «Já me aguarda a merecida coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor»:

Hoje precisamos de profecia, mas de verdadeira profecia: não discursos que prometem o impossível, mas testemunhos de que o Evangelho é possível. Não são necessárias manifestações miraculosas. Me dói quando ouço “mas, queremos uma Igreja profética”… Bem. O que fazes para que a Igreja seja profética? Queremos a profecia… é preciso vidas que manifestam o milagre do amor de Deus. Não potência, mas coerência; não palavras, mas oração; não proclamações, mas serviço. Queres uma Igreja profética? Comece a servir, fique calado. Não teoria, mas testemunho. Precisamos não de ser ricos, mas de amar os pobres; não de ganhar para nós, mas de nos gastarmos pelos outros; não do consenso do mundo (..) Mas precisamos da alegria pelo mundo que virá; não de projetos pastorais, estes projetos que parecem tem uma própria eficiência, como se fossem sacramentos, projetos pastorais eficientes, não, não, mas precisamos de pastores que ofereçam a vida: de enamorados de Deus.

E foi como “enamorados de Deus” – sublinhou Francisco – que Pedro e Paulo anunciaram Jesus:

Pedro, antes de ser colocado na cruz, não pensa em si mesmo, mas no seu Senhor e, considerando-se indigno de morrer como Ele, pede para ser crucificado de cabeça para baixo. Paulo está para ser decapitado e pensa só em dar a vida, escrevendo que quer ser «oferecido como sacrifício». Esta é a profecia. Não palavras. E esta é profecia, a profecia que muda a história.

Também para nós existe uma profecia, descrita no Livro do Apocalipse, “quando Jesus promete às suas testemunhas fiéis «uma pedra branca», na qual «estará gravado um novo nome»”. E assim, “como o Senhor transformou Simão em Pedro, assim chama a cada um para fazer de nós pedras vivas, com as quais construir uma Igreja e uma humanidade renovadas. Há sempre quem destrua a unidade e quem apague a profecia, mas o Senhor acredita em nós e pede-te: «Tu, tu, tu, tu: queres ser construtor de unidade? Queres ser profeta do meu céu na terra?»  Irmãos e irmãs, deixemo-nos provocar por Jesus e ganhemos a coragem de Lhe dizer: «Sim, quero»!”

30 de junho de 2020 at 5:38 Deixe um comentário

Assista a “Francisco do Amor (Clipe Oficial)” no YouTube

29 de junho de 2020 at 13:46 Deixe um comentário

O Papa: a gratidão é um sinal de boa educação, mas é também um distintivo do cristão

1593338758481.JPG

Francisco recordou que o Evangelho deste domingo nos convida “a viver plenamente e sem hesitação a nossa adesão ao Senhor. Jesus pede aos seus discípulos que levem a sério as exigências do Evangelho, mesmo quando isto requer sacrifício e esforço”.

Mariangela Jaguraba – Vatican News

O Papa Francisco rezou a oração mariana do Angelus deste domingo (28/06), da janela da residência pontifícia vaticana, junto com alguns fiéis que se encontravam na Praça São Pedro.

Na alocução que precedeu a oração, o Papa recordou que o Evangelho deste domingo nos convida “a viver plenamente e sem hesitação a nossa adesão ao Senhor. Jesus pede aos seus discípulos que levem a sério as exigências do Evangelho, mesmo quando isto requer sacrifício e esforço”.

Segundo Francisco, “o primeiro pedido exigente que Ele faz àqueles que O seguem é que coloquem o amor a Ele acima dos afetos familiares. Ele diz: «Quem ama o pai ou a mãe, […] o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim».” A seguir, o Papa acrescentou:

Jesus não pretende certamente subestimar o amor pelos pais e filhos, mas sabe que os laços de parentesco, se forem postos em primeiro lugar, podem desviar-se do verdadeiro bem. Vemos algumas corrupções nos governos. Elas ocorrem porque o amor pelo parentesco é maior que o amor pela pátria e eles colocam os parentes no comando. O mesmo com Jesus: quando o amor é maior que Ele, não é uma coisa boa. Todos nós poderíamos dar muitos exemplos a este respeito. Sem mencionar as situações em que os afetos familiares se misturam com escolhas opostas ao Evangelho. Quando, por outro lado, o amor pelos pais e filhos é animado e purificado pelo amor ao Senhor, então torna-se plenamente fecundo e produz frutos de bem na própria família e muito para além dela.

Carregada com Jesus, a cruz não é assustadora

Recordamos como Jesus repreende os doutores da lei que fazem com que os pais não tenham o necessário com a pretensão de entregá-lo ao altar, de entregá-lo à Igreja. Ele os repreende! O verdadeiro amor a Jesus exige um amor verdadeiro pelos pais, pelos filhos, mas primeiro buscamos o interesse familiar, isso sempre leva a um caminho errado”.

Carregada com Jesus, a cruz não é assustadora, porque Ele está sempre ao nosso lado para nos apoiar na hora da provação mais dura, para nos dar força e coragem. Também não é necessário preocupar-se por preservar a própria vida, com uma atitude temerosa e egoísta.

“Jesus adverte: «Quem procura conservar a própria vida, vai perdê-la. E quem perde a sua vida por causa de mim», ou seja, por amor a Jesus, por amor ao próimo, pelo serviço aos outros, «vai encontrá-la.» Este é o paradoxo do Evangelho. Mas temos, graças a Deus, também muitos exemplos como este”, disse ainda o Pontífice, ressaltando que “vemos isso hoje nesses dias. Quantas pessoas, quantas pessoas, estão carregando cruzes para ajudar os outros, se sacrificam para ajudar os que precisam nesta pandemia. Mas, sempre com Jesus, é possível fazer”.

Segundo Francisco, “a plenitude da vida e da alegria é encontrada através da doação de si mesmo pelo Evangelho e pelos irmãos, com abertura, aceitação e benevolência. Ao fazê-lo, podemos experimentar a generosidade e gratidão de Deus”.

A gratidão é um sinal de boa educação

No Evangelho deste domingo, Jesus diz também assim: «Quem recebe a vocês, recebe a mim […]. Quem der ainda que seja apenas um copo de água fria a um desses pequeninos […] não perderá a sua recompensa.» E o Papa acrescentou:

A gratidão generosa de Deus Pai leva em consideração até o mais pequeno gesto de amor e serviço prestado aos irmãos. Nesses dias, ouvi um sacerdote que ficou comovido porque uma criança se aproximou dele na paróquia e disse: “Padre, estas são as minhas economias; pouca coisa. É para os seus pobres, para aqueles que precisam hoje por causa da pandemia”. Coisa pequena, mas uma coisa grande. É uma gratidão contagiosa, que ajuda cada um de nós a sentir gratidão por aqueles que se preocupam com as nossas necessidades. Quando alguém nos oferece um serviço, não devemos pensar que tudo nos é devido. Não. Muitos serviços são feitos gratuitamente. Pensem no voluntariado, que é uma das maiores coisas que a sociedade italiana tem. Os voluntários! Quantos deles perderam a vida nessa pandemia. Isso é feito por amor, simplesmente para o serviço. A gratidão, o reconhecimento, é antes de tudo um sinal de boa educação, mas é também um distintivo do cristão. É um sinal simples mas genuíno do reino de Deus, que é o reino do amor gratuito e reconhecido.

O Papa concluiu, pedindo à Virgem Maria, que amou Jesus mais do que a sua própria vida e o seguiu até à cruz, para que nos ajude a colocar-nos sempre diante de Deus com um coração disponível, deixando que a sua Palavra julgue os nossos comportamentos e as nossas escolhas.

 

28 de junho de 2020 at 14:36 Deixe um comentário

O Papa na Audiência Geral: lutar com Deus, uma metáfora da oração

1591174047842.jpg

“A oração de Jacó” foi o tema da catequese do Pontífice, nesta quarta-feira. “Daquela noite, através de uma luta que durou muito tempo e que o viu quase sucumbir, o patriarca saiu transformado. Desta vez já não é dono da situação, já não é o estrategista nem o homem calculista. Deus o reconduz à sua verdade de mortal que treme e tem medo”, disse o Papa.

Vatican News

O Papa Francisco deu continuidade ao tema da oração na Audiência Geral, desta quarta-feira (10/06), realizada na Biblioteca do Palácio Apostólico.

“A oração de Jacó” foi o tema da catequese do Pontífice, que iniciou com um trecho do Livro do Gênesis que narra os acontecimentos de homens e mulheres de tempos distantes, contando-nos histórias nas quais espelhar nossa vida.

“No ciclo dos patriarcas, encontramos também a de um homem que tinha feito da astúcia o seu melhor talento: Jacó. A história bíblica nos conta a difícil relação que Jacó teve com o seu irmão Esaú. Desde crianças, houve rivalidade entre eles, que nunca foi resolvida. Jacó é o segundo filho, mas, com o engano, consegue obter de seu pai Isaac a bênção e o dom da primogenitura. É apenas a primeira de uma longa série de astúcias das quais este homem sem escrúpulos é capaz. O nome ‘Jacó’ significa algo de alguém que sabe como se mover não diretamente. Significa astúcia em se mover”.

Obrigado a fugir para longe do seu irmão, ele parece ter sucesso em todos os empreendimentos de sua vida. É hábil nos negócios: enriquece muito, tornando-se o dono de um enorme rebanho. Com tenacidade e paciência consegue casar com a mais bela das filhas de Labão, pela qual estava realmente apaixonado. Jacó, diríamos com linguagem moderna, é um homem que “se fez sozinho”, com a sua perspicácia, com astúcia, conseguiu conquistar tudo o que quis. Mas lhe falta algo. Falta-lhe uma relação viva com suas raízes.

Jacó lutou até o despertar da aurora

“Um dia tem saudades de casa, da sua antiga pátria, onde ainda vivia Esaú, o irmão com o qual sempre tivera péssimas relações. Jacó partiu e fez uma longa viagem com uma caravana de pessoas e animais, até chegar à última etapa, ao rio Jaboc. Aqui o Livro do Gênesis oferece-nos uma página memorável”, disse o Papa. Narra que o patriarca, “depois de ter feito todo o seu povo e gado atravessar a torrente, permanece sozinho na margem estrangeira. E pensa: o que o espera no dia seguinte? Qual será a atitude do seu irmão Esaú? A mente de Jacó é um turbilhão de pensamentos. Quando anoitece, de repente um desconhecido apodera-se dele e começa a lutar com ele”.

A seguir, Francisco citou um trecho do Catecismo da Igreja Católica que explica essa história: «A tradição espiritual da Igreja divisou nesta narrativa o símbolo da oração como combate da fé e vitória da perseverança».

O patriarca saiu transformado

Lutar com Deus: uma metáfora da oração. Outras vezes, Jacó tinha-se mostrado capaz de dialogar com Deus, de O sentir como uma presença amiga e próxima. Mas daquela noite, através de uma luta que durou muito tempo e que o viu quase sucumbir, o patriarca saiu transformado. Mudar o nome, mudar a maneira de viver e mudar a personalidade. Ele sai modificado, pois Jacó na luta estava com medo. Desta vez já não é dono da situação, já não é o estrategista nem o homem calculista; Deus o reconduz à sua verdade de mortal que treme e tem medo. Pela primeira vez Jacó nada mais tem para apresentar a Deus a não ser a sua fragilidade e impotência, e também os seus pecados. E é este Jacó que recebe a bênção de Deus, com a qual entra coxo na terra prometida: vulnerável, e vulnerado, mas com um coração novo. 

O Papa contou então uma história: “Certa vez, ouvi um homem idoso dizer – bom homem, bom cristão, mas pecador! – que ele tinha tanta confiança em Deus e disse: “Deus me ajudará; não me deixará sozinho. Entrarei no paraíso, mancando, mas entrarei”. Antes, Jacó “era um homem seguro de si, confiava na sua astúcia. Era um homem impermeável à graça, refratário à misericórdia. Não sabia o que era a misericórdia. Era ele! “Estou aqui. Eu comando!”. Não precisava de misericórdia, ouvia a si mesmo. Mas Deus salvou o que estava perdido. O fez entender que ele era limitado, que ele era um pecador que precisava de misericórdia e o salvou.

Deixar-nos mudar por Deus

Francisco concluiu sua catequese, dizendo que “todos nós temos um encontro com Deus na noite da nossa vida, nas muitas noites da nossa vida: momentos sombrios, momentos de pecados, momentos de desorientação. Ali, há um encontro com Deus, sempre”.

“Ele nos surpreenderá quando menos esperamos, quando nos encontramos realmente sozinhos. Naquela mesma noite, lutando contra o desconhecido, tomaremos consciência de que somos apenas pobres homens, permito-me dizer, “coitados”, mas, naquele momento, no momento em que me sinto um coitado, não devemos temer: porque naquele preciso momento Deus nos dará um novo nome, que contém o sentido de toda a nossa vida; mudará o nosso coração, e nos dará a bênção reservada para aqueles que se deixaram transformar por Ele”. Este é um convite bonito a nos deixar mudar por Deus. Ele sabe como fazê-lo, porque conhece cada um de nós. “Senhor, você me conhece”, podemos dizer cada um de nós. “Senhor, você me conhece. Muda-me”.

27 de junho de 2020 at 5:43 Deixe um comentário

Bergoglio: 47 anos da profissão dos votos solenes

 Jorge Mario Bergoglio fez os votos solenes na Companhia de Jesus em 22 de abril de 1973 (foto de família)

Jorge Mario Bergoglio fez os votos solenes na Companhia de Jesus em 22 de abril de 1973 (foto de família)

Os últimos votos na vida de um jesuíta significam a conclusão de toda a sua longa trajetória de formação e sua incorporação definitiva no corpo apostólico da Companhia de Jesus.

Vatican News

O Papa Francisco entrou na Companhia de Jesus em 11 de março de 1958, foi ordenado sacerdote em 13 de dezembro de 1969 e fez a profissão solene em 22 de abril de 1973.

Os últimos votos na vida de um jesuíta significam a conclusão de toda a sua longa trajetória de formação e sua incorporação definitiva no corpo apostólico da Companhia de Jesus.

Além dos três conselhos evangélicos, isto é, castidade, pobreza e obediência, os jesuítas que são aprovados para este grau são chamados a realizar o quarto voto, o de obediência especial ao Papa no que se refere às missões.

E nosso Papa não perde o bom humor. O jesuíta brasileiro Bruno Franguelli recorda que no início do seu pontificado,  Francisco fez um comentário espirituoso sobre este voto, perguntando-se se agora, como papa jesuíta, deveria obedecer a si mesmo.

AMDG!

26 de junho de 2020 at 5:46 Deixe um comentário

Posts antigos


Arquivos

ADMINISTRADORA DO BLOG:

Jane Amábile

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se aos outros seguidores de 341

Categorias