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Retiro espiritual, Bovati: entender quem somos para renascer

Exercícios espirituais para a Cúria Romana em Ariccia, nas proximidades de Roma

 

Na primeira meditação no retiro quaresmal em Ariccia, o pregador dos Exercícios espirituais – segundo reporta o L’Osservatore Romano – refletiu sobre o sentido do nascimento, afirmando que “meditar sobre como nós vimos ao mundo, na relação com Deus e com as outras coisas, constitui o princípio e o fundamento da nossa vida espiritual”

Cidade do Vaticano

O primeiro passo é sempre apresentar-se, mostrando a “carteira de identidade” interior. Mas para fazê-lo é preciso realmente “compreender quem somos”. O padre jesuíta Pietro Bovati foi incisivo – na manhã de segunda-feira (02/03) – na primeira meditação dos exercícios espirituais para a Cúria Romana na Casa Divin Maestro em Ariccia, nas proximidades de Roma.

A primeira coisa a ser feita, sugeriu o secretário da Pontifícia Comissão Bíblica, é entender “quem somos”, indo “à origem do prodígio do nosso nascimento”.  E na Sagrada Escritura, explicou, “nos é dita a verdade sobre nossa constituição”: nos é dito que somos a imagem de Deus porque carregamos em nossa carne algum traço d’Aquele que nos gerou”.

“Meditar a nossa gênese – ressaltou – não é algo secundário ou preliminar, mas é aquilo que sustenta, guia e dá sentido a nossa existência por completo.” Tanto que “o meditar sobre como vimos ao mundo, na relação com Deus e com as outras coisas, constitui o princípio e o fundamento da nossa vida espiritual”.

Os dois nascimentos

Em particular, o pregador dos exercícios espirituais propôs a atualidade de “dois nascimentos: o de Moisés, “o homem que Deus escolheu para a tarefa fundadora de libertar Israel”, e de Jesus, “o Salvador do mundo, enviado propriamente para levar a cumprimento o desígnio de Deus de libertação”.

São duas “histórias – insistiu – sobre as quais meditamos como prefigurações e indicações sobre o sentido do nosso pessoal vir ao mundo”. Certamente, “as vicissitudes de Moisés e Jesus têm características irrepetíveis; no entanto, nelas se mostra o sentido misterioso do nosso vir ao mundo: somos constituídos como filhos prodigiosamente doados pelo amor eterno de Deus”.

Repercorrendo as vicissitudes de Moisés, padre Bovati recordou que “a Sagrada Escritura ousa dizer que no ventre de cada mulher é Deus mesmo a formar o feto e a dar-lhe o sopro vital. Como se Ele continuasse a sua obra de Criador na pontualidade de cada evento histórico”.

E propriamente “essa audaciosa imagem de Deus tem o mérito de fazer-nos compreender que toda existência humana é obra querida pelo Criador, desde sempre desejada e levada por Ele a cumprimento no tempo estabelecido”.

Eis “uma primeira maravilhosa e vertiginosa consideração daquilo que nós somos: como não reconhecer em adoração e comovido reconhecimento que nasci e estou vivo por um maravilhoso processo que me leva a dizer que Deus me quis na minha individualidade, dirigindo cada coisa até o meu vir ao mundo?”

O desígnio de Deus: salvar-nos

Sempre em referência à história de Moisés, que desde pequeno escapou da morte, o pregador explicou que também “nós nascemos como fruto de uma extraordinária manifestação, um concurso de causas inimagináveis, porém guiadas pelo desígnio de Deus. E fomos salvos. Muitas vezes poderíamos morrer, poderíamos perder-nos. E isso são apenas traços, os sinais de um maravilhoso desígnio em relação a nós”.

Mas, alertou, “isso não pode ser interpretado banalmente”, considerando que “tivemos sorte: essa experiência deve ser lida como um evento de amor, porque alguém nos salvou, tirando-nos da ameaça de morte, do turbilhão das águas, em certos casos de morte física, em outros de morte espiritual. E então, em primeiro lugar, o fiel sente nessa consideração o manifestar-se do amor de Deus”.

O ser salvos, em outras palavras, “é a permanente verdade do meu existir que nós celebramos no sinal sacramental do batismo”. E, em segundo lugar, “o fato de ser salvos é experiência de ter sido amados por pessoas concretas”.

Portanto, afirmou o pregador, é oportuno “na oração fazer emergir a nossa genealogia e, nela, ver os rostos daqueles que me amaram e socorreram, porque naqueles rostos, como sinais, se manifesta a vontade providencial de Deus em relação a mim”.

Segundo padre Bovati, definitivamente, “como Moisés fomos salvos porque fomos adotados para além dos nossos genitores: outras figuras assumiram em relação a nós o papel parental, de modo a tornar possível nosso crescimento humano e espiritual e termos sido adotados nos faz compreender a beleza da nossa adoção filial em Cristo”.

O exemplo de José

Se na história de Moisés, quando criança, “são sobretudo as figuras femininas que intervêm para mostrar a presença ativa de Deus, na história de Jesus, por sua vez, é um homem, José, que assume essa forma”.

Propriamente o exemplo de Moisés, explicou o pregador, “deve orientar nossas decisões” com a força da sua “obediência dócil, pronta, humilde à voz de Deus”. E também como “emblema daquela castidade que sabe acolher o amor da mulher e sabe viver no amor sem possuir, sem apropriar-se vantajosamente da carne a ele confiada”. Além disso, observou, “o amor de José, em seu manifestar-se histórico, consiste em renunciar aos projetos pessoais”.

“Dessas considerações – prosseguiu – queremos compreender, contemplar com crescente admiração” que o Filho de Deus “quis assumir essa dimensão de filho do homem; e o seu nascer da carne virginal é certamente prodigioso, mas foi alimentado pelas palavras o pelo exemplo das pessoas que contribuíram para sua própria formação de homem.”

Portanto – concluiu o pregador indicando aos presentes o Salmo 139 para a oração –, “o dom feito a Cristo é figura do nosso nascer: também nós somos filhos de Deus, mas devemos tudo também àqueles que o Senhor colocou em nosso caminho como mães e pais adotivos que nos ajudaram a crescer como filhos do homem e como filhos de Deus. E isso para que também nós nos tornemos testemunhas” para “ajudar os outros a viver desse mesmo dom, a reconhecê-lo em sua história”.

21 de março de 2020 at 5:40 Deixe um comentário

Retiro espiritual: a oração sincera é arma poderosa para o advento do Reino

Um dos momentos de adoração Eucarística durante os Exercícios espirituais em Ariccia

 

Na sétima meditação dos Exercícios espirituais da Quaresma na manhã de quinta-feira (05/03) em Ariccia, que o Papa Francisco acompanha do Vaticano, o pregador padre Bovati se deteve sobre o tema “Combate e oração”: o reporta o L’Osservatore Romano. O olhar voltou-se para “uma sociedade doente, ferida, abandonada”, com forças que buscam destrir aquilo que Cristo fundou, mas, observou o jesuíta, “a rocha sobre a qual a Igreja é edificada resistirá ao mal”

Cidade do Vaticano

“Combate e oração” parece quase o título de um filme. As prementes histórias bíblicas que o sacerdote jesuíta Pietro Bovati traçou, na manhã desta quinta-feira (05/03), na sétima meditação dos Exercícios espirituais para a Cúria Romana em Ariccia, têm realmente sabor cinematográfico.

Com uma chave de leitura: a Igreja encontra-se sob violento ataque, abertamente e sorrateiramente, mas a resposta está precisamente na conjunção entre testemunho concreto e oração autêntica. Sem cessar, sem resignar-se e jamais sozinhos, e além disso, com uma arma secreta: aquela fé que sim, realmente, move as montanhas.

O dom da graça

A quinta-feira foi “dedicada a meditar sobre o compromisso pessoal que o Senhor pede a cada um de nós, em função da vocação recebida, do dom de graça, com os deveres relacionados a essa graça”, evidenciou o pregador, recordando que “toda forma de negligência, de preguiça, equivale a maldade e desprezo em relação a Deus”.

“Portanto, é ‘àqueles que o Senhor consagrou com a unção sacerdotal que hoje se dirige a pergunta: qual é o primeiro, fundamental serviço que o ministro de Deus é chamado realizar?’”

Sem dúvida, afirmou o secretário da Pontifícia Comissão Bíblica, “hoje, numa sociedade doente, ferida, abandonada, diante de necessidades urgentes e dolorosas, o sacerdote é solicitado a prestações múltiplas. Todavia, isso não deve levar a perder de vista o essencial”.

Serviço essencial do sacerdote: a oração

Padre Bovati indicou sobretudo “a oração” que, “além de ser a condição da escuta de Deus que torna possível a pregação como autêntico testemunho, ela mesma é autêntico ministério apostólico na sua natureza de acolhimento, reconhecimento da graça”.

E “a Escritura nos oferece um modelo deste ministério permanente de intercessão no Livro do Êxodo – explicou o pregador – propriamente com a figura de Moisés, mediador não somente da Palavra de Deus, mas também mediador da graça para um povo em constante perigo de perder-se”. Moisés “reza continuamente e a sua oração é eficaz e salvífica”.

Atualizando “o ministério orante de Moisés”, como é apresentado “na narração do capítulo 17 do Êxodo, num contexto de perigo”, padre Bovati sugeriu como linha da meditação, exatamente, a expressão “combate e oração”.

Encontramo-nos diante de “um episódio incomum para o Êxodo: o apresentar-se de um combate que deve repelir um povo inimigo, Amalec”. O texto, observou o pregador, deve ser lido “em seu valor parabólico, de modo a obter um ensinamento sobre como aquele que na comunidade é sacerdote e guia deve agir ao enfrentar o inimigo, aquele que ameaça a vida do povo de Deus”.

Moisés tem diante de si “um adversário astuto que agride os mais fracos da caravana, aqueles que ficam na retaguarda porque cansados, um inimigo que aproveita de um povo exausto”.

Mas nós “como vivemos hoje a relação com Amalec e quem é Amalec hoje?” – é a questão concreta proposta pelo pregador dos Exercícios espirituais. “A Igreja cristã, desde seus primeiros momentos, sofreu ataques, perseguições, ostracismos e violências mortais”.

A rocha sobre a qual a Igreja é edificada resistirá ao mal

Na história “o inimigo da Igreja assumiu diferentes aparências, por vezes a do poder político e judiciário, por vezes a dos falsos profetas que semearam ódio e menosprezo contra as convicções e o modo de viver dos cristãos. E isso continua em nossos dias, sob formas persecutórias” mais ou menos evidentes.

Uma perseguição, denunciou, que tem notas de “virulência inaudita também em nosso mundo, no intento de demolir a estrutura completa da Igreja, atacando quem é mais fraco na fé, escassamente preparado do ponto de vista espiritual para aceitar o embate, o desprezo, e a marginalização”.

Eis que, afirmou o religioso jesuíta, “o nosso Amalec tem forma atraentes para muitos e ataca sorrateiramente quem não está preparado. Enormes forças ideológicas e financeiras, coalizadas para favorecer interesses de parte, tornaram-se ameaçadoras e usam todos os meios, da informação distorcida a retaliações econômicas para destruir aquilo que Cristo fundou”.

É claro, relançou padre Bovati, “a rocha sobre a qual a Igreja é edificada resistirá ao mal, não porém sem a nossa participação ativa de fé e a oração”.

Formação humana e espiritual, prioridade apostólica

“Metáfora à parte e pensando aquilo que hoje nos é exigido para combater o bom combate do Reino de Deus – afirmou o pregador, apresentando a figura de Josué que desce ao campo de batalha –, devemos interrogar-nos com quais instrumentos enfrentamos quem, com o engano e a violência, dificulta o bem.”

“Talvez algumas armas sejam obsoletas, inapropriadas, insuficientes. A preparação cultural nas ciências humanas e ciências religiosas deve ser objeto de imperioso discernimento se não se quiser ser ingênuos e irresponsáveis diante de uma agressiva onda de doutrinas e práticas contrárias ao Evangelho, na presença de falsos profetas.”

Além disso, “as instituições tradicionais consideradas úteis talvez requeiram mudanças corajosas”. Por isso, reconheceu, “a formação humana e espiritual dos clérigos e dos leigos se mostra hoje uma prioridade apostólica”.

Imersão em Deus, condição indispensável

Com eficácia, padre Bovati delineou o perfil de Moisés em oração, com “o olhar voltado para Deus, não porque se desinteresse da batalha, mas porque quer endereçá-la à mais completa vitória. Moisés no monte representa a força secreta que conduz o exército ao triunfo: a imersão em Deus é a condição indispensável para que o combate na terra tenha bom êxito”.

Sim, “a vitória se alcança com os braços elevados, com o gesto tradicional do orante: o êxito da guerra não está nas mãos do guerreiro, Josué, mas nas mãos de Moisés que invoca Deus”.

Com uma observação sobre o “aspecto da fadiga de quem está com as mãos elevadas, uma exaustão diferente da dos combatentes, e no entanto real. E é com “humildade que para realizar a sua missão Moisés se deixa ajudar pelos sacerdotes, Aarão e Cur, que sustentam os braços do homem de Deus”.

Em suma, “cada um é indispensável, mas é na comunhão, expressão orante da aliança entre irmãos e com Deus, que a oração é eficaz, também porque expressa o amor, a solidariedade, a unidade, no idêntico serviço para todo o povo de Deus”. Por conseguinte, a sugestão é não pensar no desdobramento entre oração e contemplação de um lado e combate e ação de outro”.

A passagem do Evangelho de Mateus (17, 14-21) “fala de combate com satanás”, prosseguiu padre Bovati, indicando a figura do “jovem às presas com pulsões que não sabe controlar e é o símbolo da pessoa sofredora e indefesa, em grave perigo porque desprovida daqueles recursos que lhe permitiriam aderir ao bem”.

Apelo à força divina

A seu lado “está o pai, testemunha do sofrimento do filho”: para salvá-lo se dirige aos discípulos “que o Senhor havia dotado do poder de expulsar os demônios e de curar toda forma de mal”.

No entanto, nesse episódio, observou o pregador, “os discípulos do Senhor não conseguem nada, a atividade deles é ineficaz, a intervenção deles é desprovida daquela força espiritual para combater o espírito do mal”.

E esse é “o enigma da narração: por que falta a eficácia? Porque o poder, mesmo tendo sido dado, não dá resultado? Jesus fala da falta de fé, de “geração incrédula e perversa”.

Padre Bovati explicou que não falta “somente a oração”. A questão, efetivamente, é se os discípulos “têm ao menos um pingo de fé”.

De resto, concluiu convidando à leitura do Salmo 121, “a oração não é simples recitação, não consiste na formalidade dos lábios: se o coração não adere ao mistério de Deus a oração é vã. Porém, uma oração mesmo fraca, sincera e humilde, se é apelo àquela força divina que pode existir somente no Senhor, é a arma poderosa que nos é dada para colaborar para o advento do Reino”.

17 de março de 2020 at 5:39 Deixe um comentário

Pregação de Quaresma: como Maria, somos chamados a uma conversão permanente

Cristo na Cruz, El Greco

Cristo na Cruz, El Greco

Foi realizada no Vaticano, pelo padre Rupnik, a primeira pregação da Quaresma para o Papa e para a Cúria, centralizada no tema: “Junto da Cruz de Jesus estava sua Mãe”

Amedeo Lomonaco – Cidade do Vaticano

Hoje as gerações se confrontam com a realidade porque não é aquela que imaginaram, desejaram e por isso não a compreendem. Maria, ao contrário, continuamente compreende “a Palavra de um modo novo”. A pregação da Quaresma do jesuíta padre Marko Ivan Rupnik para o Santo Padre e a Cúria Romana é orientada nesta outra compreensão da história.

Maria e a Palavra

“Maria – explica o pregador – compreende a Palavra de um modo diverso”. Sua compreensão é uma “conversão permanente”. Ela é continuamente “desafiada por uma novidade”: “Ela pode compreender permanentemente a Palavra de um modo novo e com esta ela compreende a realidade”. Maria estava sob a Cruz, recorda o padre Rupnik, e sobre a Cruz estava escrito “Rei”. Não é possível pensar que “ali não pensasse na Palavra que lhe tinha sido dita: estarás no trono de Davi”. A Cruz é o único lugar onde está escrito que seu Filho é rei. A Cruz é o trono onde se encontra Cristo. Sem o Espírito Santo, acrescenta o padre jesuíta, não se pode compreender o dom que Deus nos deu. O dom é o Crucifixo e “nós somos unidos a esse evento”.

“A história é gerida através do dom de si, através do amor (Padre Rupnik)”

Deus é amor

Padre Rupnik sublinha que sem o Espírito Santo “não podemos compreender que Deus existe verdadeiramente como amor”. Amor significa “doar a si mesmo”. O amor se realiza com o dom de si. É uma coisa chocante, explica, que nos pede para irmos além da nossa mentalidade. Em Cristo, vemos “a verdade de Deus”. Compreender um Deus que se doa deste modo, “coloca em dificuldade as abordagens racionalistas à fé”. “Deus Pai governa o mundo e a história através do Cordeiro, o dom da fé”. “A história é gerida através do dom de si, através do amor”.

Da Quaresma ao Tríduo Pascal

O amor, que “no céu é uma Bem-aventurança absoluta”, na Terra é o Tríduo pascal. Por isso, é preciso se preparar através do caminho quaresmal. É preciso saber entender, sublinha padre Rupnik, que “a nossa presença na história encontra sentido através do Tríduo pascal”. Deve-se compreender todo o dom é consumido: “quem se doa se consome, não se poupa”. Então o testemunho é possível apenas graças ao Espírito Santo.

Viver o dom de si

É o Senhor que dá a vida: com o Espírito Santo, podemos viver a vida como “dom de si”. Deus derrama nos nossos corações o amor do Pai. Este, conclui padre Rupnik, é caminho da Igreja na história. É um caminho pascal. Nós como Maria, “somos chamados a uma conversão contínua para ver que a história procede segundo a Providência”. E que Deus “se manifesta neste mundo através da nossa presença”.

 

14 de março de 2020 at 5:41 Deixe um comentário

Exercícios Espirituais: na travessia noturna, o socorro está na Palavra de Deus

O retiro em Ariccia está sendo conduzido pelo pregador Pe. Bovati

O retiro em Ariccia está sendo conduzido pelo pregador Pe. Bovati  (Vatican Media)

Na quinta meditação dos Exercícios Espirituais da Quaresma em Ariccia, que o Papa Francisco segue do Vaticano, o pregador Pe. Bovati aprofunda o tema da “travessia noturna” que pode intimidar e suscitar dúvidas sem a âncora de salvação representada pela Palavra de Deus.

Andressa Collet – Cidade do Vaticano

As pessoas hoje “têm medo porque se sentem ser de pó”: o antídoto desse medo não é “uma compensação” calibrada sobre os genéricos “valores humanos”, mas é somente a Palavra de Deus que aparece na história dos homens e os encoraja concretamente, indicando a direção para “a travessia noturna”, sem atalhos ou varinhas mágicas. Sobretudo “no momento em que se experimenta a dificuldade ou mesmo o desastre”.

Os textos extraídos do livro do Êxodo (14, 1-31) e do Evangelho de Mateus (14, 22-32), propostos por Pe. Pietro Bovati na manhã desta quarta-feira (4), foram atualizados com profunda vivacidade durante a quinta meditação dos Exercícios Espirituais para a Cúria Romana que estão sendo realizados na cidade de Ariccia.

A intenção deste dia de oração, confidenciou o pregador, “é de acolher o sentido espiritual de alguns relatos” da Escritura, “trazendo indicações que nos ajudem na missão que o Senhor nos confiou com o nosso chamado sacerdotal e com o chamado de responsabilidade na Igreja”. O jesuíta trouxe novamente o exemplo de Moisés, “o servo de Deus”, “pessoa obediente e também corajosa, dócil e ao mesmo tempo instrumento de docilidade aos outros”. Moisés “é oferecido a nós como modelo para ser imitado”.

A travessia noturna

O Pe. Bovati recordou que o encontro recebeu o título de “travessia noturna”, já que através da palavra “noite”, “somos chamados a entrar numa perspectiva de obscuridade que comporta dimensões de inquietação, de desorientação”. E, ao mesmo tempo, “a noite é o lugar do mistério, onde Deus se manifesta”. Ma há inclusive “o aspecto do caminho que, porém, se apresenta como uma travessia, isto é, como uma estrada que faz passar, como no evento pascal, através de um estreitamento e, como tal, ainda desperta medo e até rejeição”.

No final das contas, acrescentou o pregador, “são temáticas que falam do coração humano, do processo daqueles que estão na dúvida, intimidados e, assim, buscam o socorro na Palavra de Deus, do homem que o Senhor suscitou para completar essa passagem”. Na verdade, “as pessoas têm medo porque se sentem ser de pó. É como a erva do campo, um sopro efêmero: é a experiência de cada homem”.

A força e a coragem que vêm da fé em Deus

Um “sentir” que, explicou o pregador, “acontece também para nós, e pela qual a proposta evangélica é vista como uma orientação de perdedores ou de inconscientes; e, quem tenta percorrer a estrada sente medo, desânimo, muitas vezes desilusão, porque não vê as vantagens prometidas”. A missão do homem de Deus, explicou Pe. Bovati, “é dar força a quem está inseguro, incutindo coragem através da fé em Deus, fazendo com que o coração confie no Senhor, na sua presença e na sua intervenção. É essa a palavra de consolação, que não tem nada a ver com uma simples “compensação” no momento em que se experimenta a dificuldade ou até mesmo o desastre”.

O pregador afirmou ainda que “o poder dado a Moisés não é um poder mágico, não é uma varinha mágica que faz aquilo que quer a quem a usa; o poder divino conferido ao profeta realiza eventos prodigiosos para que eles, antes de tudo, sejam mediações de salvação para os outros, para os indefesos; são destinados apenas ao bem dos pobres: então, é um poder de amor, misericordioso”.

Não tenham medo!

Inclusive no capítulo 14, de Mateus, se fala de “uma travessia do mar feita caminhando sobre as águas” e “de um barco ameaçado pela tempestade”. Assim “retoma o tema da travessia, do perigo, da noite, do medo e da intervenção do Salvador: os discípulos estão sozinhos, assustados, e quando veem Jesus que vem ao encontro deles, ao findar da noite, caminhando sobre o mar, isso, ao invés de tranquilizá-los, aumenta a consternação e o medo porque acreditam de viver uma experiência falsa e terrificante, como aquela quando aparece um fantasma, que é sinal de morte”.

Jesus os encoraja: “não tenham medo”. A mesma coisa deve ser feita por quem hoje testemunha o amor de Deus: “entrar nas casas para dizer ‘sou eu que quero o bem de vocês, que levo a consolação do Senhor’, com a consolação com a qual nós mesmos fomos consolados”.

O Pe. Bovati reconheceu que esse é um ministério, antes de tudo, “misericordioso”, porque é o caminho que leva à vida. Mas “é misericordioso também porque ampara quem tem pouca fé, quem vacila, quem tem medo de desistir”. Então, finalizou o pregador, “nós, no relato, vemos a mão do Cristo, figura da mão poderosa de Deus que se estende sobre o homem de pouca fé, salvando-o das ondas e levando a paz a ele e ao inteiro barco, então, que todos possam aceder à confissão de louvor, dizendo: realmente Tu és o Filho de Deus!”.

13 de março de 2020 at 5:40 Deixe um comentário

Pregação de Quaresma: como Maria, somos chamados a uma conversão permanente

Cristo na Cruz, El Greco

Cristo na Cruz, El Greco

Foi realizada no Vaticano, pelo padre Rupnik, a primeira pregação da Quaresma para o Papa e para a Cúria, centralizada no tema: “Junto da Cruz de Jesus estava sua Mãe”

Amedeo Lomonaco – Cidade do Vaticano

Hoje as gerações se confrontam com a realidade porque não é aquela que imaginaram, desejaram e por isso não a compreendem. Maria, ao contrário, continuamente compreende “a Palavra de um modo novo”. A pregação da Quaresma do jesuíta padre Marko Ivan Rupnik para o Santo Padre e a Cúria Romana é orientada nesta outra compreensão da história.

Maria e a Palavra

“Maria – explica o pregador – compreende a Palavra de um modo diverso”. Sua compreensão é uma “conversão permanente”. Ela é continuamente “desafiada por uma novidade”: “Ela pode compreender permanentemente a Palavra de um modo novo e com esta ela compreende a realidade”. Maria estava sob a Cruz, recorda o padre Rupnik, e sobre a Cruz estava escrito “Rei”. Não é possível pensar que “ali não pensasse na Palavra que lhe tinha sido dita: estarás no trono de Davi”. A Cruz é o único lugar onde está escrito que seu Filho é rei. A Cruz é o trono onde se encontra Cristo. Sem o Espírito Santo, acrescenta o padre jesuíta, não se pode compreender o dom que Deus nos deu. O dom é o Crucifixo e “nós somos unidos a esse evento”.

“A história é gerida através do dom de si, através do amor (Padre Rupnik)”

Deus é amor

Padre Rupnik sublinha que sem o Espírito Santo “não podemos compreender que Deus existe verdadeiramente como amor”. Amor significa “doar a si mesmo”. O amor se realiza com o dom de si. É uma coisa chocante, explica, que nos pede para irmos além da nossa mentalidade. Em Cristo, vemos “a verdade de Deus”. Compreender um Deus que se doa deste modo, “coloca em dificuldade as abordagens racionalistas à fé”. “Deus Pai governa o mundo e a história através do Cordeiro, o dom da fé”. “A história é gerida através do dom de si, através do amor”.

Da Quaresma ao Tríduo Pascal

O amor, que “no céu é uma Bem-aventurança absoluta”, na Terra é o Tríduo pascal. Por isso, é preciso se preparar através do caminho quaresmal. É preciso saber entender, sublinha padre Rupnik, que “a nossa presença na história encontra sentido através do Tríduo pascal”. Deve-se compreender todo o dom é consumido: “quem se doa se consome, não se poupa”. Então o testemunho é possível apenas graças ao Espírito Santo.

Viver o dom de si

É o Senhor que dá a vida: com o Espírito Santo, podemos viver a vida como “dom de si”. Deus derrama nos nossos corações o amor do Pai. Este, conclui padre Rupnik, é caminho da Igreja na história. É um caminho pascal. Nós como Maria, “somos chamados a uma conversão contínua para ver que a história procede segundo a Providência”. E que Deus “se manifesta neste mundo através da nossa presença”.

11 de março de 2020 at 5:42 Deixe um comentário

Francisco segue do Vaticano o retiro quaresmal em Ariccia

Casa Divino Mestre - Exercícios Espirituais

Casa Divino Mestre – Exercícios Espirituais  (Vatican Media)

Numa carta ao pregador dos Exercícios Espirituais, que começou na tarde deste domingo em Ariccia, o Papa reza e abençoa a Cúria ali reunida e reitera que seguirá do seu quarto as pregações do padre jesuíta Pietro Bovati. Protagonista das reflexões Moisés, o homem que experimenta a amizade de Deus.

Alessandro De Carolis, Silvonei José – Cidade do Vaticano

Você pode ser um artesão do sagrado ou amigo de Deus, a chave está em como se vive a oração, o único “exercício” que leva a criatura à intimidade com o Criador. O padre Pietro Bovati, teólogo da Pontifícia Comissão Bíblica e por uma semana pregador do retiro quaresmal da Cúria Romana em Ariccia, abriu neste domingo à tarde o ciclo de meditações traçando o caminho espiritual que seguirá até sexta-feira, 6 de março. “Rota” que o Papa segue da Casa Santa Marta, como ocorreu para os compromissos dos últimos dias. Neste domingo, na abertura dos Exercícios, o padre Bovati leu as linhas de uma pequena mensagem na qual Francisco, com resfriado, escreve: “Eu os acompanharei daqui”. Vou fazer os Exercícios no meu quarto, seguindo as pregações do padre Bovati, a quem muito agradeço. Rezo por vocês: por favor, rezem por mim”.

O movimento do silêncio

A oração, diz e reitera o padre Bovati, é um “caminho”, que segue “traços divinos”, e o emblema deste dinamismo é Moisés. Quando o Patriarca, como narra o livro do Êxodo, vai à tenda do encontro, colocada fora do acampamento, que, sublinha o pregador, “é o caminho do desejo”, de deixar tudo para ir ao encontro com Deus, e a nuvem que desce sobre a tenda à medida que Moisés se aproxima é o sinal do Altíssimo que “vai ao seu encontro”. Isto, observa o padre Bovati, “anula uma ideia bastante difundida que identifica a oração com uma palavra que o homem dirige ao Senhor”, quase uma “forma de recitação”, enquanto “a oração autêntica é, ao contrário, fundamentalmente uma experiência profética, aquela através da qual a criatura humana pode, em silêncio, escutar a voz do Senhor”. É um “face a face” no qual, diz a Bíblia, Deus fala a Moisés “como a um amigo”.

Uma questão de alma

Aqui está um primeiro valor da oração, que tem o que o teólogo jesuíta chama de “prodigiosa familiaridade “.

Aqui, a familiaridade com Deus nada tem a ver com a familiaridade nos assuntos religiosos, nem mesmo com uma boa cultura teológica ou bíblica. Pelo contrário, é fruto exclusivo da oração autêntica, na qual é dado ao homem ver e saborear o plano de amor de Deus, a sua vontade benéfica a ser posta em prática concreta, pronta e generosamente. Sem esta experiência de familiaridade não há vida autenticamente religiosa, mas apenas – na melhor das hipóteses – o ofício das coisas sagradas.

A necessidade da sarça

Obviamente esta confidência não é improvisada, “é o ponto final de um processo”. É de certa forma uma transfiguração semelhante à que Moisés viveu através da experiência da sarça. Para alcançar esta intimidade com Deus, afirma o padre Bovati, “é necessário ter repetidas experiências de fogo” e nisto a sarça pode “representar – afirma – a pessoa humana na sua fragilidade, fraqueza e miséria como a de um espinheiro, que no entanto é investido por uma perene força de vida: o fogo”.

Não se trata simplesmente de atualizar um pouco o fervor da nossa alma através de algum exercício apropriado de devoção, mas de assumir com renovado compromisso da verdade, com uma sincera abertura de coração o dom que Jesus veio trazer ao mundo. Quando exclamava: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como eu gostaria que já estivesse aceso!

“Subir para o andar superior”

É o fogo que o mundo de hoje necessita constantemente, no qual para o pregador existem “condições de necessidades espirituais urgentes e até dramáticas, que requerem forças espirituais de cura que só Deus pode dispensar”.

A Igreja está sempre desejosa de se renovar espiritualmente, é chamada a um processo de reforma que certamente não pode limitar-se a medidas disciplinares e administrativas, porque o Espírito solicita impulsos e mártires que só os santos podem assumir. O que podemos fazer agora, na consciência da nossa responsabilidade como crentes, é “subir à sala do andar superior”, como narrado nos Atos dos Apóstolos, e em segredo, perseverantes e concordes na oração, esperar humildemente o poder do Espírito Santo que descerá, segundo a promessa, sobre todos aqueles que rezam.

Solo sagrado

Num percurso meditativo que vai entrelaçar o Livro do Êxodo com o Evangelho de Mateus, assim como a leitura dos Salmos, o último “ícone” que o padre Bovati indica é o de Moisés tirando as sandálias ao aproximar-se da sarça ardente. É a pausa diante do divino é o convite “a parar, a não distrair o coração com outros pensamentos”, mas concentrar no encontro com Deus “todas as energias do coração”.

6 de março de 2020 at 5:40 Deixe um comentário

Oração para a Quaresma

“Senhor Jesus, infunde em mim o teu Espírito, que seja o meu guia neste tempo da Quaresma. Quero comungar no teu jejum para estar unido a Ti, para Te experimentar como o Esposo desejado. Aumenta em mim o sentido esponsal da vida cristã. Ensina-me a jejuar de quanto me faz esquecer de Ti, de quanto me afasta da meditação da tua Palavra, de quanto me leva a procurar outros «amantes» e a correr o perigo de Te ser infiel.
Que o meu jejum me abra também ao amor dos irmãos e me faça percorrer o caminho da caridade até amar como Tu amas, até que o meu amor pelos irmãos seja reflexo daquele amor que reina entre Ti, o Pai e o Espírito. (Mateus 9,14-15) Deus abençoe!”
Padre Helder Salvador

3 de março de 2020 at 5:41 Deixe um comentário

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