Posts tagged ‘Quaresma 2018’

Quarta meditação: “A sede de nada que faz adoecer”

Casa Divino Mestre, Ariccia

Nesta terça-feira (20/02), o pregador dos exercícios espirituais, Pe. José Tolentino Mendonça, refletiu sobre o contrário da sede: a preguiça – a ‘atonia’ da alma – e seus efeitos.

Cidade do Vaticano

Prosseguem na Casa Divino Mestre, em Ariccia, os exercícios espirituais do Papa Francisco e de seus colaboradores da Cúria. Na manhã desta terça-feira (20/02), o pregador do retiro, Pe. José Tolentino Mendonça, propôs uma meditação intitulada “Esta sede de nada que nos faz adoecer”.

O contrário da sede é a preguiça – disse o sacerdote. Quando perdemos a curiosidade e nos fechamos ao inédito ficamos apáticos e começamos a ver a vida com indiferença. Por sua vez, a sede nos ensina a arte de procurar, de aprender, colaborar, a paixão de servir.

“ Quando renunciamos à sede, começamos a morrer ”

Existem muitos sofrimentos escondidos cujas origens devemos descobrir e que segundo o pregador, se escondem no mistério da solidão humana.

Quando nos sentimos em ‘burnout’

Um dos problemas mais comuns hoje é o chamado ‘burnout’: sentir-se em curto-circuito, esvaziado de energias físicas e mentais. Este esgotamento emocional é definido por alguns como ‘síndrome do bom samaritano desiludido’ e atinge muitas pessoas que fazem da ajuda e da cura do próximo sua ocupação principal. Como os sacerdotes.

Pe. Tolentino mencionou uma pesquisa realizada entre o clero da Diocese de Pádua (Itália), que apontou que os sacerdotes com maior risco de burnout são os jovens (25-29 anos) e os mais idosos, com mais de 70 anos. Dentre as causas deste mal-estar, estão o peso excessivo das expectativas (pessoais e dos outros), a ausência de uma vida espiritual, o temor do juízo, a exposição demasiada a situações humanas difíceis, pouca solidariedade entre os sacerdotes, incapacidade de se comunicar…

Quando nos sentimos amados como pessoas, amparados com afeto e acompanhamento, sabendo que nosso trabalho interessa, envolve e apaixona, temos a certeza de existir. Mas quando nos sentimos abandonados, incompreendidos e com o coração ferido por dores que não sabemos curar, temos a impressão de não contar nada para ninguém.

“ Fica só um vazio, uma ‘cratera’ existencial a ser preenchida com angústias e mundanidades: álcool, redes sociais, consumismo ou hiperatividade ”

A este respeito, o padre lembrou que somos todos diferentes, cada um com sua beleza e fragilidades. A beleza humana é aceitar-se como somos; não viver nos sonhos ou ilusões, na raiva e na tristeza. Ter o direito de ser o que somos… e seremos amados por Deus e preciosos a seus olhos.

Jonas ou a necessária terapia do desejo

Recorrer à terapia do humor para satisfazer o desejo: o livro bíblico de Jonas nos faz sorrir salutarmente de nós mesmos, ao invés de dramatizar. Ele nos diz que a sabedoria está nos anunciadores de esperança e não nos apocalíticos pregadores de tragédias.

A anatomia da tristeza

‘Um dos sinônimos da preguiça, a ‘atonia’ da alma, é a tristeza’, afirmou o pregador.

“ Nem sempre o problema é o excesso de atividade, mas atividades mal vividas, sem motivação adequada, sem a espiritualidade que a torna desejável ”

Em relação à pastoral, a preguiça pode ter diferentes origens: insistir em projetos irrealizáveis; não aceitar a evolução dos processos; perder o contato real com as pessoas, não saber esperar, querer dominar o ritmo da vida… A ansiedade de obter resultados imediatos… a sensação de fracasso, de ser criticado, de cruz.

Aprendam de mim: ‘vem’

Pe. Tolentino concluiu sua meditação relacionando a nossa sede ‘de água’ com a palavra que revela a necessidade profunda, íntima e dolorosa ‘vem’, que a Igreja experimenta com a chegada no Espírito. Nesta palavra está o sinal de tudo o que precisamos, a razão de nossa esperança e ao mesmo tempo, a razão de nosso fracasso, cansaço… e a necessidade de superar tudo isso em Deus.

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1 de março de 2018 at 5:43 Deixe um comentário

3ª meditação: escutar a própria sede é interpretar o desejo que temos em nós

Exercícios Espirituais da Quaresma propostos ao Papa e à Cúria Romana

Nós batizados formamos uma comunidade de desejosos? Os cristãos têm sonhos? A Igreja é um laboratório do Espírito onde nossos filhos e filhas profetizam, nossos anciãos têm sonhos e nossos jovens constroem novas visões, não somente religiosas? – pergunta o pregador, Pe. José Tolentino.

Cidade do Vaticano

“Há em nossas culturas e, ao mesmo tempo, em nossas Igrejas, um déficit de desejo. Quando se percebe, no momento atual, o emergir, e em escala cada vez maior, de sujeitos sem desejo, isso deve levar-nos a uma autocrítica eclesial.” É uma constatação e uma das afirmações candentes contidas na meditação vespertina do pregador dos Exercícios Espirituais, Pe. José Tolentino de Mendonça, propostos ao Papa e à Cúria Romana em Ariccia, nas proximidades de Roma, cujo Retiro Espiritual de Quaresma prosseguirá até o próximo sábado. Tratou-se da terceira meditação, após a primeira da tarde de domingo e a seguinte da manhã desta segunda-feira (19/02).

O infinito do desejo é desejo de infinito

Intitulada “Dei-me conta de ser sedento”, a meditação da tarde desta segunda-feira articulou-se em quatro pontos, concluindo-se com a “oração da sede”.

Perder o medo de reconhecer nossa sede

O pregador partiu de quatro verbos – irrigar, fecundar, germinar – para falar inicialmente de um processo de revitalização do terreno qual metáfora da nossa vida. Tendo advertido que a transformação não se dá se impermeabilizamos a vida em sua crosta, afirmou que devemos perder o medo de reconhecer a nossa sede e o nosso ser sedento.

Na meteorologia se usa uma tabela, o Índice de Palmer, para medir a intensidade da seca em seus vários estágios, afirmou. E a intensidade da seca espiritual, como se mede? – perguntou-se o pregador dos Exercícios.

“Intelectualizamos demasiadamente a fé. Construímos um fenomenal castelo de abstrações”, observou. “Preocupamo-nos mais com a credibilidade racional da experiência de fé do que com a sua credibilidade existencial, antropológica e afetiva”, constatou.

“ Ocupamo-nos mais da razão do que do sentimento. Deixamos para trás a riqueza do nosso mundo emocional. ”

Feitas tais constatações, citou o teólogo canadense Bernard Lonergan, que evocava a necessidade de olhar mais, na construção doutrinal, para o significado das nossas emoções. Em suas considerações sobre o estado da nossa sede recorreu à literatura, que nos é de auxílio, ressaltou.

Escritores e poetas são importantes mestres espirituais

Em  nossos dias assistimos cada vez mais a utilização da literatura ao fazer teologia, afirmou, acrescentando que hoje estamos compreendendo melhor que os escritores e os poetas são mestres espirituais importantes. Após destacar que as obras literárias podem ser de grande utilidade em nosso caminho de maturação interior, frisou que uma das razões fundamentais é que “a vida espiritual progride somente quando é uma revisitação da existência em sua totalidade, em sua diversidade.

Para tal citou, entre outros, a escritora brasileira Clarice Lispector, a qual, com a força de uma declaração autobiográfica, narra a tomada de consciência da intensidade de sua sede.

Falar de sede é falar da existência real e não da ficção de nós mesmos à qual muitas vezes nos adequamos. E iluminar uma experiência, mais que um conceito, acrescentou Pe. José Tolentino, advertindo em seguida para a dificuldade que podemos ter até mesmo de reconhecer o nosso ser sedento.

Desejo da verdade, beleza e bondade

Escutar a própria sede é interpretar o desejo existente em nós. Desejo incessante da verdade, da beleza e da bondade que faltam. O pregador dos Exercícios Espirituais propostos ao Papa e à Cúria Romana advertiu ainda que devemos distinguir o desejo de uma mera necessidade, que se aplaca e se satisfaz com a posse de um objeto. Não confundamos desejo com as necessidades. A necessidade é uma carência contingente do sujeito. O infinito do desejo é desejo de infinito.

Citou a revisitação ao “discurso platônico do desejo em chave mística” feita por Simone Weil, para quem, não é o nosso desejo que alcança Deus: “se permanecemos sedentos e desejosos, é Deus mesmo que desce em nossa humanidade para preencher o nosso desejo de plenitude”.

Enquanto desejamos objetos, quaisquer que sejam; enquanto deixamos que a nos mover seja a busca das coisas, carreiras, títulos, honorificências, nosso desejar não é ainda um verdadeiro desejar.

“ O desejo genuíno tem início quando ele se formula, nem mais nem menos, como pura abertura ao outro. ”

Hoje se torna cada vez mais claro que as sociedades capitalistas, organizadas em torno do consumo, que exploram avidamente as compulsões de satisfação de necessidades induzidas pela publicidade, estão na prática removendo a sede e o desejo tipicamente humanos, fazendo com que a vida perca seu horizonte, afirmou taxativamente Pe. José Tolentino.

Voltando seu olhar para a vida da Igreja, tais constatações serviram para o pregador dos Exercícios Espirituais propor as seguintes interpelações:

“Nós batizados formamos uma comunidade de desejosos? Os cristãos têm sonhos? A Igreja é um laboratório do Espírito onde, como no oráculo de Joel (3,1), nossos filhos e filhas profetizam, nossos anciãos têm sonhos e nossos jovens constroem novas visões, não somente religiosas, mas também novas compreensões culturais, econômicas, científicas e sociais?”

Questões mais contundentes

Tais interrogações foram propedêuticas a algumas questões mais contundentes: A Igreja tem fome e sede de justiça (Mt 5,6)? Os cristãos esperam realmente, segundo a promessa, “novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pd 3,13)?

Sede de Deus

No último ponto da meditação vespertina desta segunda-feira, no qual tratou da sede de Deus, o sacerdote português frisou que “talvez nós cristãos, e em particular nós pastores, devemos valorizar mais a espiritualidade da sede, mais que as estruturas”. “Nós cristãos e em particular nós pastores”, prosseguiu, “devemos melhor reconciliar-nos com nossa vulnerabilidade”.

Por fim, destacou que o “Papa Francisco nos recorda que uma das piores tentações é a autossuficiência e a autorreferência”. Abraçar a própria vulnerabilidade é aceder ao desejo de ser reconhecidos e tocados por Jesus.

Oração da sede

“Ensina-me, Senhor, a beber da mesma sede de Ti,

como quem se alimenta mesmo na penumbra

do frescor da fonte”…

“Que esta sede se faça mapa e viagem

palavra acesa e gesto que prepara

a mesa sobre a qual se partilha o dom.”

“E quando darei de beber a Teus filhos seja

não porque possuo a água

mas porque como eles sei o que é a sede”.

27 de fevereiro de 2018 at 5:34 Deixe um comentário

Segunda meditação da Quaresma: “A ciência da sede”

Papa em retiro quaresmal

Na Casa “Divino Mestre” de Ariccia, Papa Francisco e seus colaboradores participam dos Exercícios Espirituais de autoria do sacerdote português José Tolentino de Mendonça e intitulados “Aprendizes do estupor”.

Cidade do Vaticano –

Durante toda esta semana, o Papa Francisco se encontra em Ariccia, nas proximidades de Roma, para os Exercícios Espirituais de Quaresma. Até o próximo domingo (25/02), estão suspensas todas as audiências públicas do Santo Padre, inclusive a Audiência Geral de quarta-feira, e as homilias na Casa Santa Marta.

Na manhã de segunda-feira, após as orações, o Pontífice e os colaboradores prosseguiram o retiro iniciado no domingo. Este ano, pela primeira vez, o pregador vem de Portugal.

A segunda meditação proposta pelo Pe. José Tolentino de Mendonça ao Papa e aos seus colaboradores foi dedicada ao tema “A ciência da sede”.

O tema foi inspirado na última frase pronunciada por Jesus no livro do Apocalipse (Ap 22, 17), “Quem tem sede, venha”.

O sacerdote português alternou citações bíblicas a obras de teólogos, escritores, poetas e dramaturgos como Milan Kundera, Padre Henri de Lubac, Emily Dickinson, Eugène Ionesco, Saint-Exupéry.

No trecho do Apocalipse, as palavras usadas são “quem tem sede”, “quem quiser” – expressões que se referem a nós, afirmou Pe. Tolentino. “Estamos tão próximos da fonte e vamos para tão longe, perdidos em desertos, em busca da torrente que nos mate a sede e ignorando assim ‘o dom que Deus tem para nos dar’.”

A dor da nossa sede

Não é fácil reconhecer que sentimos sede, prosseguiu o sacerdote, “porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós”, por trás das nossas habituais narrações defensivas ou idealizadas.

Há uma violência no mundo e em nós mesmos que vem da sede, do medo da sede, do pânico de não ter as condições de sobrevivência garantidas. “Nós nos revoltamos uns contra os outros. A dor da nossa sede é a dor da vulnerabilidade extrema, quando os nossos limites nos comprimem.”

O sacerdote português citou o consumismo dos centros comerciais, mas ressaltou que não devemos nos esquecer que existe também um consumismo na vida espiritual. As sociedades que impõem o consumo como critério de felicidade transformam o desejo numa armadilha.

O objeto do nosso desejo é uma entidade ausente, um objeto inesgotável. O Senhor, porém, não cessa de nos dizer: «Quem tem sede, venha; quem quiser, tome de graça da água da vida».

O caminho da nossa sede

Para o Pe. Tolentino, existem muitos modos de enganar as necessidades que nos dão vida e adotar uma atitude de evasão espiritual sem jamais, porém, se conscientizar de que estamos em fuga.

Também aqui, como em outros âmbitos da vida, afimou, a verdadeira conversão não consistirá em belas teorias, mas em decisões que resultem de uma efetiva conscientização das nossas necessidades.

Nem que fosse um único copo de água

O trecho do Apocalipse volta ao final da medtiação. «Quem tiver sede, venha …» Certamente não bebemos para matar a sede. Jesus sabe que um simples copo de água que damos ou recebemos não é algo banal. É um gesto que dialoga com dimensões profundas da existência, porque vai ao encontro daquela sede que está presente em todo ser humano, e é sede de relação, de aceitação e de amor.

“Carregamos conosco tantas sedes. A sede é um patrimônio biográfico que somos chamados a reconhecer e do qual somos gratos. Depositemos em Deus a nossa sede.”

26 de fevereiro de 2018 at 5:31 Deixe um comentário

Quaresma. Frei Cantalamessa: transformar-se para transformar o “mundo”

Frei Raniero Cantalamessa

Na Capela Redemptoris Mater, nesta manhã, a primeira pregação da Quaresma, realizada pelo Frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. O tema das meditações para a Quaresma: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”.

Silvonei José – Cidade do Vaticano

Na manhã desta sexta-feira (23) realizou a primeira pregação da Quaresma na capela Redemptoris Mater no Vaticano, conduzida pelo frei Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Na sua meditação o franciscano enfatizou que, para transformar o mundo, devemos nos transformar.

A sua reflexão teve como centro as palavras de São Paulo na sua Carta aos Romanos: “Não vos conformeis com este mundo”. Não diz, “transformem-no”, mas sim “transformem-se”. Esta primeira meditação introduz o espírito da Quaresma, sem entrar no tema específico do programa, também devido à ausência de parte dos participantes dos encontros, o Papa e os membros da Cúria Romana que concluíram nesta manhã dos Exercícios Espirituais em Ariccia.

A palavra “mundo” no cristianismo

O frei capuchinho recorda que a atitude de Jesus em relação ao mundo é de “estar no mundo, mas não ser do mundo, que em si mesmo, apesar de tudo, é uma realidade boa criada por Deus.

Desta forma encontrou-se em um “beco sem saída” – destaca – e em poucos anos, não se falou mais de teologia da secularização e alguns dos mesmos promotores se distanciaram dela.

Ir em direção dos pobres é separar-se do mundo

O frei Cantalamessa explica então o que é o “mundo” ao qual não devemos nos conformar: “Nós já sabemos qual é, para o Novo Testamento, o mundo ao qual não devemos conformar-nos: não o mundo criado e amado por Deus, não os homens do mundo aos quais sempre devemos ir ao encontro, especialmente os pobres, os últimos, os sofredores.

O “misturar-se” com este mundo do sofrimento e da marginalização é, paradoxalmente, o melhor modo de “separar-se” do mundo, porque é ir lá onde o mundo foge com todas as suas forças. É separar-se do próprio princípio que governa o mundo, que é o egoísmo”.

A fé é o terreno de confronto primário 

O terreno de “confronto primário” entre o cristão e o “mundo” é a fé, disse Frei Canatalamessa, que se refere às “conclusões que tiram os cientistas não crentes da observação do universo” e outros: no melhor dos casos “Deus é reduzido a um vago e subjetivo senso do mistério e Jesus Cristo nem sequer é levado em consideração”. “A adaptação ao espírito dos tempos” é quando o mundo adormenta as pessoas sugando as energias espirituais e injetando uma espécie de líquido soporífero.

A figura desse mundo passa

O cristão – explica – não deve se conformar ao mundo, não porque a matéria seja má ou inimiga do espírito, como pensaram os platônicos, mas porque passa a cena deste mundo. Basta pensar nos mitos de 40 anos atrás ou ao que permanecerá dos mitos e celebridades de hoje.

“Nu, saí do ventre da minha mãe, e nu vou voltar”, diz Jó (Jó 1, 21). O mesmo – continua Cantalamessa – acontecerá com os bilionários de hoje com seu dinheiro e com os poderosos de hoje que fazem o mundo tremer com o seu poder”.

Jejum de imagens

Enfim uma advertência do Frei Cantalamessa de não se conformar com este mundo: as imagens. “Os antigos tinham inventado o lema: “Jejuar do mundo” (nesteuein tou kosmou); hoje isso deve ser entendido no sentido de jejuar das imagens do mundo. Uma vez era considerado mais eficaz o jejum dos alimentos e das bebidas. Não é mais assim. Hoje se jejua por muitas outras razões: especialmente para manter a linha. Nenhum alimento, diz a Escritura, é impuro, enquanto muitas imagens são. Elas se tornaram um dos veículos privilegiados com o qual o mundo difunde o seu antievangelho”. E recordou um hino da Quaresma:

Utamur ergo parcius

Usemos parcamente

Verbis, cibis et potibus,

de palavras, comida e bebida,

Somno, iocis et arctius

de sono e de entretenimentos.

Perstemus in custodia.

Estejamos mais vigilantes em proteger os sentidos.

25 de fevereiro de 2018 at 5:53 Deixe um comentário

Primeira meditação da Quaresma 2018: “Aprender a ‘desaprender'”

Casa do Divino Mestre, Ariccia

De autoria do sacerdote português José Tolentino de Mendonça, e intitulada “Aprendizes do estupor”, a reflexão propôs citações de Simone Weil, Eduardo Galiano, Tolstoj e Fernando Pessoa.

Cidade do Vaticano

Como anunciado por ele mesmo após a oração do Angelus e com seu tuíte do dia, o Papa Francisco deixou o Vaticano domingo (18/02) e se dirigiu a Ariccia, sudeste de Roma, aonde por uma semana, permanecerá em retiro espiritual.

O micro-ônibus do Vaticano deixou a Casa Santa Marta às 16h, levando o Papa e seus colaboradores mais próximos para a casa dos padres Paulinos ‘Divino Mestre’, aonde até sábado, (24/02) serão feitos os exercícios espirituais de Quaresma.

A primeira meditação, por obra do sacerdote português José Tolentino de Mendonça, teve como título “Aprendizes do estupor”, sugerido pelo Evangelho de João.
No texto, Jesus diz à samaritana apenas três palavras: “Dá-me de beber”. Assim como ela se surpreende com tal pedido, nós também ficamos desconcertados – antecipou o pregador – porque estas são as palavras que Jesus dirige a nós:

“ Dá-me o que tem, abre seu coração, dá-me o que é ”

O cansaço de Jesus

Deste estupor, a meditação passa ao ‘cansaço de Jesus’ e ao nosso. Podemos entender o diálogo de Jesus com a samaritana somente se mantivermos diante dos olhos o dom sem limites que Jesus faz de si na cruz. Em ambas as circunstâncias, o sol diz que é meio-dia, a hora sexta. É a hora central do dia, o meio do tempo, que marca o antes e o depois. Não é simplesmente a indicação cronológica, mas o símbolo da passagem de Jesus em nós. Por isso, explicou o sacerdote, mesmo que o relógio assinale outro horário, muitas vezes é meio-dia em nossas vidas. Cada vez que nascemos é meio-dia.

Ele veio nos procurar

Quando Jesus pede ‘Dá-me de beber’, a sua sede não se materializa na água. É uma sede maior. É sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contato com os nossos desertos, com nossas feridas. Nós devemos nos comportar com confiança. Temos que nos reconhecer como ‘chamados’.

Conhecer o dom de Deus

É o Senhor que toma a iniciativa de vir ao encontro de nós. Ele chega antes ao poço. Quando a samaritana entra em cena, Jesus já está lá, sentado. Quanto maior é o nosso desejo, o de Deus é sempre maior. Citando um trecho do ‘Livro dos abraços’ do escritor uruguaio Eduardo Galiano, Padre Tolentino completou:

“ Deus sabe que nós estamos aqui ”

Nossa oração sobe até Deus

Com novas citações, de Tolstoj a Fernando Pessoa, a meditação sugeriu os participantes a “desaprender”:

“Desaprendamos para aprender aquela graça que tornará possível a vida dentro de nós. Desaprendamos para aprender até que ponto Deus é a nossa raiz, o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa contemplação, a nossa companhia, a nossa palavra, o nosso segredo, a nossa escuta, a nossa água e a nossa sede”.

Concluindo, Pe. Tolentino exortou os participantes:

“Digamos no nosso íntimo, com toda a verdade de que somos capazes: ‘Senhor, estou aqui à espera do nada’, ‘Senhor, estou aqui à espera do nada’. Ou seja, estou apenas à espera de ti, à espera do que és, à espera do que me dás’.

22 de fevereiro de 2018 at 5:35 Deixe um comentário

Comentário: Voltar a arder de fé, esperança e caridade

Cristo Redentor  Cristo Redentor 
Para curar do gelo do amor sufocado o Papa indica os remédios da oração, da esmola e do jejum.

Silvonei José – Cidade do Vaticano

Contra o resfriamento dos corações e fim da caridade, além disso contra os enganos dos “falsos profetas”, “eis que a Igreja, nossa mãe e mestra, junto com o remédio, às vezes amargo, da verdade, nos oferece neste momento de Quaresma o doce remédio da oração, da esmola e do jejum”: é o que o Papa Francisco afirma em sua Mensagem para a Quaresma 2018 apresentado no Vaticano. O texto foi publicado terça-feira e é inspirado no Evangelho de Mateus “Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos” (Mt 24, 12).

O jejum tira força à nossa violência

O Papa Francisco adverte na sua mensagem para as inúmeras formas que os falsos profetas podem assumir. Podem ser “encantadores de serpentes”, ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde querem. “Quantos homens e mulheres – escreve – vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!”

Outros falsos profetas são aqueles “charlatães” que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: droga, relações passageiras e virtuais, lucros fáceis mas desonestos.

“Estes impostores ao mesmo tempo em que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar.” Por isso, escreve o Pontífice, cada um de nós é chamado a discernir e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. Essas mentiras acabam apagando o amor. A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento: a terra está envenenada, os mares poluídos, e que infelizmente guardam os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E o que fazer neste tempo de Quaresma diante desses sinais de resfriamento? Francisco recorda que a Igreja oferece o remédio da oração, da esmola e do jejum. Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas com que nos enganamos a nós mesmos para procurar finalmente a consolação em Deus.

A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão. “Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos!”

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário. Na mensagem, o Papa expressa o desejo de que a sua voz ultrapasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando todos os homens e mulheres de boa vontade.

Francisco cita ainda a iniciativa “24 horas para o Senhor”, que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, será celebrada nos dias 9 e 10 de março, inspirando-se nestas palavras do Salmo 130: “Em Ti, encontramos o perdão”. Em cada diocese, pelo menos uma igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e da confissão sacramental.

Em sua mensagem o Papa Francisco nos pede para vermos se nossos corações estão ameaçados por mentiras que nos tornam escravos do prazer, do dinheiro, das drogas, dos relacionamentos “descartáveis” e da realidade virtual das mídias sociais. Para curar do gelo do amor sufocado indica os remédios da oração, da esmola e do jejum.

Assim, na noite de Páscoa a luz do círio pascal poderá realmente expulsar a escuridão e a escuta da palavra do Senhor com a nutrição do Pão Eucarístico, “permitirá que nossos corações voltem a arder de fé, esperança e caridade”.

20 de fevereiro de 2018 at 6:35 Deixe um comentário

Papa: “Quaresma é um tempo de penitência, mas não de tristeza”

Antes de rezar o Angelus, Francisco frisou que “somente Deus pode nos dar a verdadeira felicidade: é inútil perder tempo procurando-a em outros lugares, em riquezas, prazeres, poder ou carreira”.

Cidade do Vaticano

Sob muita chuva, mas com a Praça São Pedro repleta de fiéis, turistas e romanos, o Papa Francisco rezou a oração do Angelus este domingo (18/02) e a precedeu com algumas palavras de reflexão sobre a Quaresma.

Inspirado no Evangelho de Marcos, Francisco propôs os três temas mencionados na leitura do dia: tentação, conversão e Boa Nova.

Assim como Jesus se preparou 40 dias no deserto, posto à prova por Satanás, para vencer as tentações nós devemos fazer o nosso ‘treinamento’ espiritual, disse o Papa.

“Somos chamados a enfrentar o mal mediante a oração para sermos capazes, com a ajuda de Deus, de derrotá-lo em nosso dia a dia. Infelizmente, o mal está à obra em nossa existência e ao nosso redor, aonde existem violências, negação do próximo, fechamentos, guerras e injustiças”.

Boa Nova exige do homem conversão e fé 

“Em nossa vida, precisamos sempre de conversão; não somos suficientemente orientados a Deus e devemos continuamente dirigir nossa mente e nosso coração a Ele. Para isto, é preciso ter a coragem de rechaçar tudo o que nos conduz fora do caminho, os falsos valores que atraem o nosso egoísmo”.

“ Somente Deus pode nos dar a verdadeira felicidade: é inútil perder tempo procurando-a em outros lugares, em riquezas, prazeres, poderes, carreira. ”

“O reino de Deus é a realização de todas as nossas aspirações mais profundas e autênticas porque é, ao mesmo tempo, salvação do homem e glória de Deus”.

O apelo de Jesus à conversão.

“Que Maria Santíssima nos ajude a viver esta Quaresma com fidelidade à Palavra de Deus e com oração incessante, como fez Jesus no deserto. Não é impossível! Trata-se de viver os dias desejando intensamente acolher o amor que vem de Deus e que quer transformar nossa vida e o mundo inteiro!”.

19 de fevereiro de 2018 at 5:35 Deixe um comentário

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