Missa em Santa Marta – Sanguessugas de hoje

24 de maio de 2016 at 4:56 Deixe um comentário

2016-05-19 L’Osservatore Romano

A meditação sobre a justa relação que o cristão deve manter com o dinheiro, com a riqueza, levou o Papa Francisco, durante a missa celebrada em Santa Marta na manhã de quinta-feira, 19 de maio, a denunciar as «escravidões de hoje» e quem, aproveitando da difundida falta de trabalho, «explora as pessoas», obrigando-as a aceitar contratos iníquios, irregulares. Traficantes que «engordam em riqueza» e vivem como «verdadeiras sanguessugas», nutrem-se «com o sangue das pessoas. E isto é pecado mortal», comentou com palavras severas.

De resto, foi inspirada na leitura tirada da carta do apóstolo Tiago (5, 1-6), definida pelo Papa «um pouquinho forte». Evidentemente, observou Francisco, «o apóstolo tinha compreendido o perigo que existe quando um cristão se deixa comandar pelas riquezas» e por isso no seu texto «não poupa palavras: é direto e claro», escreve: «Vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós virão. Vossas riquezas apodreceram e vossas roupas foram comidas pela traça». O que um rico pensará disto? Na verdade, explicou o Papa, se formos ver «o que nos ensina a Palavra de Deus sobre as riquezas», entendemos que «as riquezas por si mesmas são boas», dado que o próprio Deus dá ao homem a tarefa de prosperar («Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra»). E também na Bíblia «encontramos muitos homens justos e ricos». O Pontífice recordou alguns deles: de Job, por exemplo, encontra-se a lista «de todas as riquezas que Deus lhe dá»; mas podemos recordar também Tobias, Joaquim, o marido de Susana. A tantos «o Senhor dá a riqueza como uma bênção».

Portanto, «as riquezas são boas» mas, acrescentou Francisco, são também «relativas». De facto, o Senhor «elogia Salomão por não ter pedido riquezas mas sabedoria do coração para julgar o povo». As riquezas «não são algo absoluto». Pelo contrário, disse, alguns pensam, acreditam, «naquela que é chamada a “teologia da prosperidade”, isto é, Deus que te demonstra que és justo se te concede muitas riquezas». Mas «é um erro». Portanto, também o salmista diz: «Às riquezas não vincular o coração». E é precisamente este o «problema» que envolve cada um de nós: «o meu coração está vinculado às riquezas, ou não? Como é a minha relação com a riqueza?». A tal propósito Jesus «fala sobre “servir”: não se pode servir a Deus e às riquezas; estão em contraposição. Por si mesmas são boas, mas se preferires servir a Deus, as riquezas passam para o segundo lugar: para o lugar justo». Para se fazer entender melhor o Papa evocou o episódio evangélico do «jovem rico que Jesus amou porque era justo», ele «era bom mas apegado às riquezas e estas riquezas no final para ele tornaram-se correntes que lhe tiraram a liberdade de seguir Jesus».

É o mesmo problema que são Tiago trata na sua carta, na qual «observa aqueles que consideram as riquezas quase como deus» e «vivem pelas riquezas!». A eles, severamente, o apóstolo escreve: «O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará as vossas carnes como fogo. Entesourastes nos últimos dias!». A fim de esclarecer que «a relação com as riquezas que estas pessoas mantinham era negativa», Tiago usa palavras que, frisou o Pontífice, parecem escritas por alguém que vive «hoje, numa das nossas cidades do mundo: “Eis que o salário, que defraudastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, clama, e seus gritos de ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos”». Isto é, aponta o dedo contra aquelas situações em que «as riquezas se formam com a exploração das pessoas» que «se tornam escravas». Neste ponto Francisco exortou a pensar no mundo de hoje onde «se verifica o mesmo» e acontece, por exemplo, que a quem procura trabalho oferecem um contrato «de setembro a junho, sem possibilidade de aposentadoria nem assistência médica», que depois suspendem durante os meses de verão, como se em julho e agosto comessem ar, e depois em setembro voltam a fazê-lo. Quem assim se comporta, disse claramente o Papa, «é verdadeiras sanguessugas e vive do escoamento do sangue das pessoas que tornam escravas do trabalho».

O apóstolo Tiago referia-se ao trabalho dos ceifeiros, hoje mais em geral, conhecemos a «escravidão do trabalho». A tal propósito o Pontífice narrou a experiência de uma jovem à qual propuseram onze horas de trabalho por dia com o salário irregular de 650 euros por mês. Diante dos seus protestos disseram-lhe: «Olha atrás de ti a fila que há. Se quiseres, muito bem, caso contrário não falta quem». Estes ricos, comentou Francisco, «engordam em riquezas» e parecem os mesmos sobre os quais o apóstolo escreve: «saciastes os vossos corações para o dia da matança!». E dirigindo-se idealmente a eles o Papa acrescentou: «O sangue que sugastes a todas estas pessoas» é «um grito ao Senhor, um clamor de justiça».

Quantos se comportam deste modo, disse o Pontífice, são «traficantes» e «não se dão conta disto». Nós, explicou, «pensávamos que os escravos deixaram de existir. É verdade, não vão buscá-los à África para os vender na América: não. Mas existe nas nossas cidades», na «exploração das pessoas, não só de crianças e jovens», mas de todas as pessoas» que no trabalho são tratadas «sem justiça».

Refletindo sobre estes temas, o Papa evocou também a catequese da audiência geral do dia anterior, dedicada ao rico Epulão e a Lázaro. Aquele rico, disse, «estava no seu mundo, não se dava conta que do outro lado da porta da sua casa havia alguém com fome» e «deixava que o outro morresse». Aqui, frisou, é ainda «pior»: assistimos ao «morrer de fome das pessoas com o seu trabalho pelo meu lucro! Viver do sangue das pessoas. Isto é pecado mortal. É pecado mortal. É preciso muita penitência, muita restituição para se converter deste pecado».

Em apoio das palavras severas do apóstolo Tiago, na liturgia hodierna, há também o salmo 48, «uma bonita meditação, serena, sobre a pobreza – «Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos Céus”», onde dos ricos – lê- se de modo «claro» – que «descerão no precipício do sepulcro, desaparecerá todos os seus vestígios; o Inferno será a sua morada».

A tal propósito, o Pontífice contou outro breve episódio, recordando «um homem avaro» sobre o qual, quando morreu, as pessoas gracejavam: «o funeral foi arruinado» – «porquê?», diziam: «Não puderam fechar o caixão» – «Mas porquê?» – «Porque queria levar tudo o que possuía consigo e não pôde». Ninguém, afirmou Francisco, «pode levar consigo as próprias riquezas».

Concluindo a homilia, o Papa exortou novamente a pensar «no drama de hoje: a exploração das pessoas». E não só nos tráficos relativos à prostituição ou o trabalho de menores, mas «àquele tráfico – digamos – mais “civilizado” pelo qual há quem diga: “Pago-te até aqui, sem férias, sem seguro médico, tudo irregular… assim enriqueço!». E, evocando uma passagem do Evangelho do dia (Marcos 9, 41-50), rezou ao Senhor a fim de que «nos faça entender hoje aquela simplicidade que Jesus nos diz no Evangelho de hoje: é mais importante um copo de água em nome de Cristo do que todas as riquezas acumuladas com a exploração das pessoas».

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