HOMILIA DO SANTO PADRE FRANCISCO – Basílica de São João de Latrão II Domingo de Páscoa ou da Divina Misericórdia, 7 de abril de 2013

8 de abril de 2013 at 10:53 Deixe um comentário

Com alegria, celebro pela primeira vez a Eucaristia nesta Basílica Lateranense,  a Catedral do Bispo de Roma. Saúdo a todos vós com grande afecto: o caríssimo  Cardeal Vigário, os Bispos Auxiliares, o Presbitério diocesano, os Diáconos, as  Religiosas e os Religiosos e todos os fiéis leigos. Saúdo também ao Senhor  Presidente da Câmara Municipal e sua esposa e às restantes Autoridades.  Caminhamos juntos na luz do Senhor Ressuscitado.

  1. Hoje celebramos o Segundo Domingo de Páscoa,  designado também «Domingo da Divina Misericórdia». A misericórdia de  Deus: como é bela esta realidade da fé para a nossa vida! Como é grande e  profundo o amor de Deus por nós! É um amor que não falha, que sempre agarra a  nossa mão, nos sustenta, levanta e guia.
  2.  No Evangelho de hoje, o apóstolo Tomé  experimenta precisamente a misericórdia de Deus, que tem um rosto concreto: o de  Jesus, de Jesus Ressuscitado. Tomé não se fia nos demais Apóstolos, quando lhe  dizem: «Vimos o Senhor»; para ele, não é suficiente a promessa de Jesus que  preanunciara: ao terceiro dia ressuscitarei. Tomé quer ver, quer meter a sua mão  no sinal dos cravos e no peito. E qual é a reacção de Jesus? A paciência:  Jesus não abandona Tomé relutante na sua incredulidade; dá-lhe uma semana de  tempo, não fecha a porta, espera. E Tomé acaba por reconhecer a sua própria  pobreza, a sua pouca fé. «Meu Senhor e meu Deus»: com esta invocação simples mas  cheia de fé, responde à paciência de Jesus. Deixa-se envolver pela misericórdia  divina, vê-a à sua frente, nas feridas das mãos e dos pés, no peito aberto, e  readquire a confiança: é um homem novo, já não incrédulo mas crente.

Recordemos também o caso de Pedro: por três vezes renega Jesus, precisamente  quando Lhe devia estar mais unido; e, quando toca o fundo, encontra o olhar de  Jesus que, com paciência e sem palavras, lhe diz: «Pedro, não tenhas medo da tua  fraqueza, confia em Mim». E Pedro compreende, sente o olhar amoroso de Jesus e  chora… Como é belo este olhar de Jesus! Quanta ternura! Irmãos e irmãs, não  percamos jamais a confiança na paciente misericórdia de Deus!

Pensemos nos dois discípulos de Emaús: o rosto triste, passos vazios, sem  esperança. Mas Jesus não os abandona: percorre juntamente com eles a estrada. E  não só; com paciência, explica as Escrituras que a Si se referiam e pára em casa  deles partilhando a refeição. Este é o estilo de Deus: não é impaciente como  nós, que muitas vezes queremos tudo e imediatamente, mesmo quando se trata de  pessoas. Deus é paciente connosco, porque nos ama; e quem ama compreende,  espera, dá confiança, não abandona, não corta as pontes, sabe perdoar.  Recordemo-lo na nossa vida de cristãos: Deus sempre espera por nós, mesmo quando  nos afastamos! Ele nunca está longe e, se voltarmos para Ele, está pronto a  abraçar-nos.

Sempre me causa grande impressão a leitura da parábola do Pai misericordioso;  impressiona-me pela grande esperança que sempre me dá. Pensai naquele filho mais  novo, que estava na casa do Pai, era amado; e todavia pretende a sua parte de  herança; abandona a casa, gasta tudo, chega ao nível mais baixo, mais distante  do Pai; e, quando tocou o fundo, sente saudades do calor da casa paterna e  regressa. E o Pai? Teria ele esquecido o filho? Não, nunca! Está lá, avista-o ao  longe, tinha esperado por ele todos os dias, todos os momentos: sempre esteve no  seu coração como filho, apesar de o ter deixado e malbaratado todo o património,  isto é, a sua liberdade; com paciência e amor, com esperança e misericórdia, o  Pai não tinha cessado um instante sequer de pensar nele, e logo que o vê, ainda  longe, corre ao seu encontro e abraça-o com ternura – a ternura de Deus –, sem  uma palavra de censura: voltou! Isto é a alegria do pai; naquele abraço ao  filho, está toda esta alegria: voltou! Deus sempre espera por nós, não se  cansa. Jesus mostra-nos esta paciência misericordiosa de Deus, para sempre  reencontrarmos confiança, esperança! Um grande teólogo alemão Romano  Guardini dizia que Deus responde à nossa fraqueza com a sua paciência e isto é o  motivo da nossa confiança, da nossa esperança (cf. Glabenserkenntnis,  Wurzburg 1949, p. 28). É uma espécie de diálogo entre a nossa fraqueza e a  paciência de Deus – um diálogo, que, se entrarmos nele, nos dá esperança.

3. Gostava de sublinhar outro elemento: a  paciência de Deus deve encontrar em nós a coragem de regressar a Ele,  qualquer que seja o erro, qualquer que seja o pecado na nossa vida. Jesus  convida Tomé a meter a mão nas suas chagas das mãos e dos pés e na ferida do  peito. Também nós podemos entrar nas chagas de Jesus, podemos tocá-Lo realmente;  isto acontece todas as vezes que recebemos, com fé, os Sacramentos. São Bernardo  diz numa bela Homilia: «Por estas feridas [de Jesus], posso saborear o mel dos  rochedos e o azeite da rocha duríssima (cf. Dt 32, 13), isto é, posso  saborear e ver como o Senhor é bom» (Sobre o Cântico dos Cânticos 61, 4).  É precisamente nas chagas de Jesus que vivemos seguros, nelas se manifesta o  amor imenso do seu coração. Tomé compreendera-o. São Bernardo interroga-se: Mas, com que poderei contar? Com os meus méritos?  Todo «o meu mérito está na misericórdia do Senhor. Nunca serei pobre de  méritos, enquanto Ele for rico de misericórdia: se são abundantes as  misericórdias do Senhor, também são muitos os meus méritos» (ibid., 5).  Importante é a coragem de me entregar à misericórdia de Jesus, confiar na sua  paciência, refugiar-me sempre nas feridas do seu amor. São Bernardo chega a  afirmar: «E se tenho consciência de muitos pecados? “Onde abundou o pecado,  superabundou a graça” (Rm 5, 20)» (ibid., 5). Talvez algum de nós possa pensar: o meu pecado é tão grande, o meu afastamento  de Deus é como o do filho mais novo da parábola, a minha incredulidade é como a  de Tomé; não tenho coragem para voltar, para pensar que Deus me possa acolher e  esteja à espera precisamente de mim. Mas é precisamente por ti que Deus espera!  Só te pede a coragem de ires ter com Ele. Quantas vezes, no meu ministério  pastoral, ouvi repetir: «Padre, tenho muitos pecados»; e o convite que sempre  fazia era este: «Não temas, vai ter com Ele, que está a tua espera; Ele  resolverá tudo». Ouvimos tantas propostas do mundo ao nosso redor; mas  deixemo-nos conquistar pela proposta de Deus: a proposta d’Ele é uma carícia de  amor. Para Deus, não somos números; somos importantes, antes, somos o que Ele  tem de mais importante; apesar de pecadores, somos aquilo que Lhe está mais a  peito.

Depois do pecado, Adão sente vergonha, sente-se nu, sente remorso por aquilo que  fez; e todavia Deus não o abandona: se naquele momento começa o exílio longe de  Deus, com o pecado, também já existe a promessa do regresso, a possibilidade de  regressar a Ele. Imediatamente Deus pergunta: «Adão, onde estás?» Deus  procura-o. Jesus ficou nu por nós, tomou sobre Si a vergonha de Adão, da nudez  do seu pecado, para lavar o nosso pecado: pelas suas chagas, fomos curados.  Recordai-vos do que diz São Paulo: De que poderei eu gloriar-me senão da minha  fraqueza, da minha pobreza? É precisamente sentindo o meu pecado, olhando o meu  pecado que posso ver e encontrar a misericórdia de Deus, o seu amor, e ir até  Ele para receber o seu perdão.

Na minha vida pessoal, vi muitas vezes o rosto misericordioso de Deus, a sua  paciência; vi também em muitas pessoas a coragem de entrar nas chagas de Jesus,  dizendo-Lhe: Senhor, aqui estou, aceita a minha pobreza, esconde nas tuas chagas  o meu pecado, lava-o com o teu sangue. E sempre vi que Deus o fez: Deus acolheu,  consolou, lavou e amou.

Amados irmãos e irmãs, deixemo-nos envolver pela misericórdia de Deus; confiemos  na sua paciência, que sempre nos dá tempo; tenhamos a coragem de voltar para sua  casa, habitar nas feridas do seu amor deixando-nos amar por Ele, encontrar a sua  misericórdia nos Sacramentos. Sentiremos a sua ternura maravilhosa,  sentiremos o seu abraço, e ficaremos nós também mais capazes de misericórdia,  paciência, perdão e amor.

© Copyright 2013 – Libreria Editrice Vaticana

Anúncios

Entry filed under: Santo Padre. Tags: , .

Alterações na programação da Festa da Penha – Sexta- feira (05 \ 04 \ 13) Saudação à Mãe de Deus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


ADMINISTRADORA DO BLOG:

Jane Amábile

Digite seu endereço de email para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por email.

Junte-se a 198 outros seguidores

Categorias


%d blogueiros gostam disto: